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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018


CONSTRUÇÃO DE UMA PERGUNTA EM PESQUISA


Sendo a pergunta a parte inicial e fundamental de qualquer pesquisa, descrevo uma metodologia básica para a "formatação" das ideias.

A Metodologia PICO:

PICO representa um acrônimo para 

Paciente, Intervenção, Comparação e “Outcomes” (desfecho). 

Esses quatro componentes são os elementos fundamentais da questão de pesquisa e da construção da pergunta para a busca bibliográfica de evidências.

A estratégia PICO pode ser utilizada para construir questões de pesquisa clínica, do gerenciamento de recursos humanos e materiais, da busca de instrumentos para avaliação de sintomas, etc... 

Pergunta de pesquisa adequada (bem construída) possibilita a definição correta de que informações (evidências) são necessárias para a resolução da questão clínica de pesquisa, maximiza a recuperação de evidências na bibliografia e nos dados disponíveis, foca os limites da pesquisa e evita a realização de buscas desnecessárias. 


Atualmente há grande quantidade de informação científica, muitas vezes contraditória, e há também grande facilidade de acesso a estudos desenvolvidos em todo o mundo. 

Ter acesso ao conhecimento produzido sobre determinado assunto é fundamental para o desenvolvimento de boas pesquisas e adequada atuação clínica. A internet e os portais deperiódico de acesso livre permitem acesso ao conhecimento, mas isso não basta, pois é preciso saber o que selecionar nessa imensidão de informações e como fazê-lo. 

A estratégia PICO auxilia nessas definições pois, orienta a construção da pergunta, da busca bibliográfica e permite que o profissional, ao ter uma dúvida ou questionamento, localize, de modo rápido e objetivo, a melhor informação científica disponível.
 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

O que antecede um projeto de tese

O que antecede um projeto de dissertação ou tese.



O pré-projeto (ou anteprojeto) é um planejamento do seu trabalho, um esqueleto sobre o qual você vai construir sua pesquisa.

Tudo deve estar previsto em um 
projeto de pesquisa, desde a escolha de um tema, a coleta de informações preliminares, a delimitação de um problema, sua justificativa frente ao que já foi realizado no assunto em que ele se insere, a fixação dos objetivos, o levantamento de hipóteses, a determinação de um referencial teórico e de uma metodologia que sejam adequados para testar as hipóteses e resolver o problema colocado, a coleta dos dados, sua análise e interpretação e a s técnicas próprias para isso, até a previsão de recursos humanos e instrumentais, do cronograma, tudo isso para terminar na elaboração da monografia, de um relatório final, de uma dissertação, de uma tese ou de um livro.
Elementos básicos de um projeto de pesquisa (seja para monografia, dissertação ou tese):

a) Formulação da situação problema - é a questão principal da pesquisa (seja monografia, dissertação ou tese), o problema a ser resolvido (O quê?);
b) Objetivos - finalidade da pesquisa (seja para monografia, dissertação ou tese) (Para quê?);
c) Delimitação - explicitar o que será objeto de estudo e o que não será abordado e por quê;
d) Importância do estudo - mostrar a relevância do estudo, considerando os avanços acadêmicos ou teóricos e práticos, como também as contribuições sociais que o estudo poderá ter;
e) Hipótese - é a antevisão de algo que se pretende provar ao longo da pesquisa (seja monografia, dissertação ou tese). A hipótese deve ser apresentada no projeto em três ou quatro linhas e o texto pode ser na primeira pessoa do singular;
f) Revisão da literatura - é a contextualização do tema através do debate teórico; são os principais conceitos, categorias e estudos precedentes;
g) Metodologia - caminhos possíveis para o desenvolvimento da pesquisa (seja para monografia, dissertação ou tese), determinação de instrumentos, coleta e análise de dados;
h) Cronograma - estabelecimento de prazos e passos a serem seguidos no decorrer da pesquisa (seja para monografia, dissertação ou tese);
i) Bibliografia - fontes que serão consultadas para a fundamentação teórica do estudo.





Estrutura do projeto


Abaixo segue uma estrutura genérica de ´pré-projeto, esta pode variar dependendo das exigências de cada universidade.
1. Tema/Titulo/Introdução

O título deve ser conciso e explicativo. Devem-se evitar palavras desnecessárias. O mais acertado é optar-se por um título geral (que indica genericamente o teor do trabalho), seguido por um título técnico (que especifica a temática abordada).

2. Problema

O Problema é a mola propulsora de todo o trabalho de pesquisa (monografia, artigo, projeto, dissertação, tese). Depois de definido o tema, levanta-se uma questão para ser respondida através de uma hipótese, que será confirmada ou negada através do trabalho de pesquisa. O Problema é criado pelo próprio autor e relacionado ao tema escolhido. O autor, no caso, criará um questionamento para definir a abrangência de sua pesquisa. Não há regras para se criar um Problema, mas alguns autores sugerem que ele seja expresso em forma de pergunta. Particularmente, prefiro que o Problema seja descrito como uma afirmação.

3. Hipótese

Hipótese é sinônimo de suposição. Neste sentido, Hipótese é uma afirmação categórica (uma suposição), que tenta responder ao Problema levantado pelo tema escolhido para pesquisa (monografia, artigo, projeto, dissertação, tese). É uma pré-solução para o Problema levantado. O trabalho de pesquisa, então, irá confirmar ou negar a Hipótese (ou suposição) levantada.

4. Justificativa

A Justificativa num projeto de pesquisa, como o próprio nome indica, é o convencimento de que o trabalho de pesquisa (monografia, artigo, projeto, dissertação, tese) é fundamental de ser efetivado. É aqui que o tema escolhido pelo pesquisador e a Hipótese levantada são de suma importância, para a sociedade ou para alguns indivíduos, de ser comprovada.
Deve-se tomar o cuidado, na elaboração da Justificativa, de não se tentar justificar a Hipótese levantada, ou seja: tentar responder ou concluir o que vai ser buscado no trabalho de pesquisa. A Justificativa exalta a importância do tema a ser estudado, ou justifica a necessidade imperiosa de se levar a efeito tal empreendimento.

5. Objetivos

A definição dos Objetivos determina onde o pesquisador quer chegar com a realização do trabalho de pesquisa (monografia, artigo, projeto, dissertação, tese). Objetivo é sinônimo de meta, fim. Alguns autores separam os Objetivos em Objetivos Gerais e Objetivos Específicos, mas não há regra a ser cumprida quanto a isto e outros autores consideram desnecessário dividir os Objetivos em categorias.
Um macete para se definir os Objetivos é colocá-los começando com o verbo no infinitivo: esclarecer tal coisa; definir tal assunto; procurar aquilo; permitir aquilo outro, demonstrar alguma coisa etc.

6. Revisão de literatura

É uma revisão sucinta das pesquisas anteriores Trata-se de conhecer e evidenciar o conhecimento científico sobre o tema, que vem sendo publicado em obras acadêmicas por estudiosos importantes do assunto. Deve-se buscar, conhecer e ler, prioritariamente, os livros dos estudiosos mais reconhecidos pela comunidade acadêmica. Depois, procuram-se os artigos recentes publicados em revistas científicas, em anais de congressos, simpósios, colóquios e conferências. A revisão da literatura deve ser seletiva e crítica.

7. Metodologia

A Metodologia é a explicação minuciosa, detalhada, rigorosa e exata de toda ação desenvolvida no método (caminho) do trabalho de pesquisa.
É a explicação do tipo de pesquisa, do instrumental utilizado, do tempo previsto, da equipe de pesquisadores e da divisão do trabalho, das formas de tabulação e tratamento dos dados, enfim, de tudo aquilo que se utilizou no trabalho de pesquisa.

8. Cronograma

O Cronograma é a previsão de tempo que será gasto na realização do trabalho (monografia, artigo, projeto, dissertação, tese) de acordo com as atividades a serem cumpridas. As atividades e os períodos serão definidos a partir das características de cada pesquisa e dos critérios determinados pelo autor do trabalho.

Os períodos podem estar divididos em dias, semanas, quinzenas, meses, bimestres, trimestres etc.. Estes serão determinados a partir dos critérios de tempo adotados por cada pesquisador.

9. Referências

As referências dos documentos consultados para a elaboração do Projeto é um item obrigatório. Nelas normalmente constam os documentos e qualquer fonte de informação consultada no Levantamento de Fontes.

sábado, 2 de abril de 2016

Paradoxo do Ferro


Pesquisadores identificaram complexo de ferro no sangue que age como vilão em infecções graves, tornando-se letal para o corpo. Identificaram também a proteína que o neutraliza – uma esperança para evitar milhões de mortes ao ano.


Principal causa de morte nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI), a sepse, ou infecção grave, atinge cerca de 18 milhões de pessoas por ano no mundo todo. Só no Brasil, o número de casos pode chegar a 350 mil, sendo que 60% das pessoas não sobrevivem.

Uma arma em potencial contra essa doença está sendo desenvolvida no Instituto Gulbenkian de Ciência, em Portugal. Os resultados obtidos até agora foram apresentados em estudo que mereceu a capa da Science Translational Medicine.
Entre os autores estão os brasileiros Fernando Bozza e André Miguel Japiassu, médicos da Fundação Oswaldo Cruz, além do professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Moises Marinho Cavalcante.

"O corpo reage à ação da bactéria usando células de defesa excessivamente ativadas que acabam prejudicando seu próprio tecido"
Quando um paciente é internado e seu quadro se agrava por conta de uma infecção, é comum imaginar que o problema foi causado por uma bactéria que se espalhou vertiginosamente, causando inflamação e, em casos extremos, falência múltipla dos órgãos.

Fernando explica, no entanto, que o processo é diferente: “Na verdade, o corpo reage à ação da bactéria usando células de defesa excessivamente ativadas que acabam prejudicando seu próprio tecido. É essa lesão nas células dos tecidos que causa a falência dos órgãos”, diz.

Isso quer dizer que a bactéria não se espalhou, mas a reposta imune do hospedeiro foi exagerada e acabou por prejudicá-lo.


Ciclo vicioso

Os pesquisadores descobriram que essa resposta é amplificada pela presença de um complexo de ferro conhecido como ‘heme’, que circula no sangue dentro das hemácias, na forma de hemoglobina, mas que pode ser liberado para a circulação durante as infecções.

“Esse complexo tem uma função vital para o corpo, que é o transporte de oxigênio. O problema é que, durante a sepse, ele circula livremente na corrente sanguínea, sem as proteínas que deveriam estar ligadas a ele para controlar sua ação oxidante, letal para as células”, afirma o pesquisador.

A proteína em questão é a hemopexina, presente no plasma. Ao examinar amostras de 58 pacientes com sepse, os pesquisadores notaram que o processo se dá como um ciclo vicioso.

Primeiro, acontece a inflamação, que se torna mais intensa. Então, o corpo reage, aumentando o heme livre na circulação. Isso que agrava a lesão do tecido celular e aumenta o consumo de hemopexina, justamente o elemento que poderia neutralizar a sua ação.

A queda da proteína e a lesão tecidual grave, em muitos casos, levam à morte por falência múltipla dos órgãos. “Por isso, encontramos baixos níveis de hemopexina e altos níveis de heme livre nos pacientes que não sobrevivem”, diz o pesquisador.

"Encontramos baixos níveis de hemopexina e altos níveis de heme livre nos pacientes que não sobrevivem”
Nos testes realizados com camundongos, a sobrevida das cobaias que receberam a proteína aumentou de 20% para 80% na resposta às infecções.

“O estudo já permite monitorar o quadro dos pacientes, medindo a quantidade de heme livre e de hemopexina na corrente sanguínea. No futuro, deve ajudar no desenvolvimento de medicamentos”, afirma.

Ao desvendar este mecanismo, os pesquisadores deram um passo em direção à cura da sepse: “Descobrimos que a hemopexina tem uma função protetora. Talvez ela não seja a única proteína eficiente contra a doença, mas já é uma estratégia”, comemora Bozza.

Bruna Ventura
Ciência Hoje.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Doação

Rafael, este era o nome. Como anjo ou melhor, como arcanjo... Ou seria um dos adjetivos de Deus? Não importa, importa que Rafael tinha leucemia. Com 11 anos tinha a forma mais avassaladora da doença. Leucemia, ou o sangue leitoso, completo de células brancas, os leucócitos. 

Já em quimioterapia há mais de 2 meses. Usando drogas com nomes complexos tendo mais consoantes que vogais. Estava careca e sem sobrancelhas o que ressaltava ainda mais os olhos pretos, vívidos. Duas jabuticabas grandes... A palidez da pele aumentava ainda mais a negritude dos olhos... estava anêmico, perigosamente sem sangue... Tinha uma deficiência grave de hemácias e plaquetas. As primeiras carregam oxigênio e levam vida a todas as outras células (sempre pensei no pulmão como exclusivo nessa tarefa - ledo engano) e as plaquetas que fazem o papel de "Super Bonder" da coagulação.

Rafael, 11 anos, estudava num colégio municipal de Sta. Cruz, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Não era bom aluno e tão pouco era dos mais comportados... Sua grande virtude era ser educado e solícito aos mais velhos... Criado pelos avós tinha adquirido uma visão respeitosa com todos que de alguma forma se pareciam com "Vozinha" ou "Vovô Biu"... avós que por descaminhos da vida tiveram que assumir o menino quando da morte prematura da mãe após um procedimento de aborto, numa clínica (clínica?) suspeita. Rafael tinha apenas 11 meses...

Não sabia ao certo quem era o pai mas os adultos sempre fizeram graça dizendo que Rafael era filho do Cleiderson, o dono da loja de ferragens no Cento de Sta. Cruz, próximo a estação do trem. Sua mãe tivera um caso com ele ha 12 anos. O comerciante tinha pouco mais de 40 anos e já era casado ha mais de 20 anos. Comentam que o casamento prematuro foi imposição do sogro que era sargento PM.

Por algum motivo, pouco explicado na época, Cleiderson mandou um bolo e dois pacotes de fralda no primeiro aniversário de Rafael. Sem presença e sem cartão. Nenhum outro aniversário teve bolo ou fraldas.

Rafael era acarinhado por sua avó - companhia permanente -  e pelos residentes de hematologia. Aos 11 anos seus olhos pretos tinham visto mais do que o necessário para alguém com sua idade, mas também tinha conquistado a afeição e solidariedade de outros olhos... Ganhava alguns presentes, roupas usadas, mas limpas e dignas... até um vídeo game de 2a mão ele ganhou...  Mas Rafael continuava com 11 anos, dois avós e uma leucemia.

Rafael tinha mais carências do que posses. No momento necessitava de transfusão de sangue e de plaquetas. Coisas que o Hospital do Fundão não tinha... O Banco de Sangue, elegantemente chamado de Serviço de Hemoterapia, vivia sua maior carência... Raros doadores se ofereciam e os que assim faziam não tinham o sangue compatível com o de Rafael...

Após algumas transfusões, Rafael, apesar de apenas 11 anos, tinha desenvolvido anticorpos no que sobrava de seu sistema imunológico. Fez com que as transfusões fossem ainda mais complexas e difíceis... Ele era "0 negativo" com inúmeros anticorpos de superfície.

Nenhum doador era compatível... vários tentaram... até Cleiderson tentara doar sangue, mas como era de grupo de risco e tivera comportamento promiscuo, teve sua doação recusada.

Finalmente apareceu um doador não conhecido por ali, como se surgisse do nada, fez os testes tranquilo e nem reclamou na picada da lanceta que furou seu dedo... o sangue pingou vermelho vivo, denso no pequeno dispositivo que verificou e constatou que não havia anemia... ao contrário, era, como diria Machado de Assis, um "rubicundo". Parecia mesmo um doador profissional. Pesado na balança, disse que não sabia bem qual era seu peso... Apesar de ser um mulato esguio e magro registrou exatos noventa quilos com um metro e oitenta e três de altura. Aferiram a pressão arterial e era normal... Em resumo, gozava de plena saúde.  

O doador não se recusou a responder qualquer pergunta, sempre solícito, natural, parecia muito verdadeiro, não era doador de riscos, não estivera em nenhuma área perigosa, não estivera preso e nem tivera amantes ou amigos presos, sequer tatuagens. A Enfermeira Fabiane só estranhou quando perguntou se ele tinha doado sangue e a resposta foi que sempre doou, em todos os lugares e para todos... inclusive ali, no Hospital do Fundão.

Nenhuma doação é personalizada, em essência, mas sempre se pergunta para quem está doando... "- Rafael, o menino de 11 anos com leucemia. Está internado na Hematologia Pediátrica. Aquele que tem anticorpos irregulares no sangue."

Foi "votar" o Ato de Auto Exclusão - obrigatório - quando teria que entrar em uma cabine e fazer a opção para afirmar, secretamente, Sim ou Não. Se por algum motivo não queria que seu sangue fosse utilizado em outra pessoa. Foi ali que Fabiane estranhou quando a máquina começou repetidamente a dizer a frase codificada pelo computador, que anunciava sempre que alguém votava.
"-Obrigado, Você pode estar salvando uma vida. Você pode estar salvando uma vida.Você pode estar salvando uma vida. Você pode..." O curioso é que o equipamento ficou repetindo isso por um bom tempo.

Enquanto a máquina repetia, Fabiane que conhecia Rafael e até tinha levado alguns brinquedos que recolhera entre amigos e em sua igreja ficou tocada de alguma forma. No braço do doador fazia todo o protocolo padronizado... passava o algodão com álcool enquanto examinava as veias mais calibrosas... Colocou a a cinta de látex, ou garrote, e fez as veias saltarem... colocou a agulha com delicadeza, perguntou se estava tudo bem, e o sangue farto e quase azul de tão denso, foi enchendo a bolsa... ágil e constante. Estranhara aquela doação rápida, quase um recorde. 
Fabiane retirou a agulha e antes mesmo de entregar o vale suco de uva com croissant, para se recuperar, ele virou a sala e ganhou o corredor da Cantina do Banco de Sangue e saiu.
Perguntou pra Dna. Madalena da cantina. Ela vira ninguém. Perguntou pra faxineira daquela área se tinha visto alguém sair... e igual... 

Ao final da tarde, por curiosidade Fabiane foi verificar o tipo sanguíneo e sorologias daquele doador... "0 negativo"... Plenamente compatível com Rafael, a despeito dos anticorpos.

Rafael, 11 anos, uma leucemia e tão poucas posses, tinha ganhado mais uma chance...
Curiosamente após a transfusão Rafael recuperou bem mais do que o esperado...As novas sessões de quimioterapia tiveram nenhum efeito colateral... e apesar de continuar careca, ele retornou com sua vivacidade. A todos chamava "tio"... e todos o tinham por sobrinho... 
Em pouco mais de 2 meses e sem qualquer outra transfusão veio a notícia: Remissão Completa! Rafael com 11 anos não tinha mais uma leucemia!

Passados dois anos, fazendo um trabalho de auditoria, Fabiane esteve em Santa Cruz, por imensa coincidência encontrou Rafael, agora com 13 anos, terminando o ensino fundamental e querendo uma vaga na escola técnica... Tinha uma cabeleira de dar inveja... Continuava magricelo, mas transbordava saúde. Falou com Rafael e trocaram lembranças. Ficou feliz em ver o menino com tanta saúde. Fabiane lembrou daquele doador incomum, lembrou daquele dia especial em que houve uma reviravolta na vida de Gabriel... voltou ao Banco de sangue para procurar nos arquivos o nome do último doador, aquele misterioso que desaparecera e que cedeu sangue ao menino.

O cartão com os dados básicos e obrigatórios do doador estranhamente tinha sumido, inclusive os dados sobre futuras avaliações sorológicas. No lugar em que deveria estar obrigatoriamente o adesivo com o código de barras das bolsas de sangue (plasma, plaquetas e hemácias) mais o código do doador impresso pelo computador e o número-identificação de praxe, lá estava um informação atípica: "Eu Sou"

Fazia sentido... 
O maior Doador estivera no Banco de Sangue...

Hoje Rafael tem 13 anos e uma vida plena!

sábado, 6 de julho de 2013

Discurso de Casamento





Leonardo e Lara


Este é um momento de agradecimentos...
Pela Família, Pelos amigos, Pelos companheiros de jornada...
Pela noite agradável e pela história de vida... Pela história de vida de vocês...
Portanto:
Agradeçam a Deus pela oportunidade de terem se conhecido e
se apaixonado...
Agradeçam a descoberta do valor da cumplicidade e do companheirismo...
Que culminou nesse casamento!
(... e como motociclista, acho que você deveria agradecer muito a
Lara não implicar com sua Harley Davidson...)


Mas o casamento nem sempre tem uma ótica tão positiva em sociedade...
Seja pelo bom humor ou pela realidade...
O fato é que ninguém fica isento de uma opinião sobre o casamento...

"Casa-te por amor e viverás em lágrimas". Ditado espanhol.

"O amor é cego, o casamento devolve a visão". Ditado escocês.

"O ideal no casamento é que a mulher seja cega e o homem surdo". Sócrates

"O casamento faz de duas pessoas uma só, difícil é determinar qual será". Shakespeare

"O casamento feliz é e continuará a ser a viagem de descoberta mais importante
que o homem jamais poderá empreender". Kierkegaard

"Se Casamento fosse bom, não precisaria de testemunhas".



"Todos nós estamos aqui para testemunhar o casamento de Lara Presto e Leonardo Tabak.
Mas testemunhar não é a palavra mais adequada.
Vocês estão aqui NÃO como testemunhas deste casamento, e sim como guardiões do casamento de
Lara e Leo".
"A Lara e o Leo ainda não sabem disto, mas viver 10, 20, 50 anos juntos não vai ser nada fácil."
"Eles precisarão de nós, de tempos em tempos, para enfrentar os inúmeros problemas
que poderão ter daqui para a frente. Por isto, eles vão precisar dos amigos, dos guardiões deste casamento."
"Daqui algumas horas, quando vocês se despedirem, não digam
Parabéns... ou A festa foi linda..., digam:
-A Partir de hoje,
Conte Comigo, Conte Conosco,
-A Partir de hoje,
Vamos Apoiá-los, Vamos Apoiar este Casamento... Para Sempre."


Mas tem mais...
A Partir de hoje,
O mundo não será apenas uma promessa,
Será um sonho
Composto de dois existir;
Um sonho lindo... as vezes um sonho conturbado...
A partir de hoje...
Seus sentimentos serão vividos oficialmente juntos
Serão as duas metades encontradas;
Encontrando-se numa só chama.
Serão motivos de alegrias e de conquistas, derrotas, sucessos...
Contemplados por dois corações.
Esse sonho recém plantado, plantado hoje
Dará frutos;
Frutos do Verdadeiro Amor,
Como todo sonho
Muitas vezes acontecem desencontros, pesadelos
Mas a força dessa união
Fará com que as duas metades permaneçam juntas, unidas
Descobrindo e vivendo o significado da palavra Felicidade.
E é com toda admiração a esse Amor que desejo...
Muitas Felicidades!!!

Termino com o poema de um judeu celebre da diáspora... Shaul...
Que veio a ter seu nome traduzido (ou adaptado) como Paulo... e ele diz:

Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor,
serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine, serei apenas um metal...
Ainda que eu conheça todos os mistérios e toda a ciência; se não tiver amor, nada serei.
E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue
o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso servirá.
O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana,
não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera,
não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê,
tudo espera, tudo suporta.
O Amor nunca Acaba...

Mazal Tov!

segunda-feira, 25 de março de 2013

Oração de São Tomás de Aquino (1225-1274)


Criador inefável,
Tu que és a fonte verdadeira da luz e da ciência,
derrama sobre as trevas da minha inteligência um raio da tua claridade.
Dá-me inteligência para compreender,
memória para reter,
facilidade para aprender,
subtileza para interpretar,
e graça abundante para falar.

Meu Deus, semeia em mim a semente da tua bondade.
Faz-me pobre sem ser miserável,
humilde sem fingimento,
alegre sem superficialidade,
sincero sem hipocrisia;
que faça o bem sem presunção,
que corrija o próximo sem arrogância,
que admita a sua correcção sem soberba,
que a minha palavra e a minha vida sejam coerentes.

Concede-me, Verdade das verdades,
inteligência para conhecer-te,
diligência para te procurar,
sabedoria para te encontrar,
uma boa conduta para te agradar,
confiança para esperar em ti,
constância para fazer a tua vontade.

Orienta, meu Deus, a minha vida,
concede-me saber o que tu me pedes
e ajuda-me a realizá-lo
para o meu próprio bem
e de todos os meus irmãos.
Ámen.

Publicado por DraftCraft app

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Entendendo Linfomas

Linfoma é classificado como cancer, sendo a quinta neoplasia mais frequente nos EUA. Claro que este numero comporta todos os subtipos desta doença.
Os Linfomas são uma neoplasia do sistema imunológico e o entendimento de sua biologia é bastante complexo, principalmente quando levamos em consideração que até hoje, a despeito de todo o avanço em biociências, só conhecemos parcialmente a fiisiologia do sistema imunológico...

A própria classificação da doença vem sendo aperfeiçoada ha mais de 60 anos!!!!! Dentre as classificações existentes, a grande maioria "organiza" a doença em Linfoma de Hodgkin ( 5 subtipos ) e Linfoma não-Hodgkin ( mais de 45 subtipos ). Nas classificações são levados em conta características celulares de forma, comportamento, genética e resposta imune, além do comportamento clínico da doença, ou seja, como o paciente se apresenta.

Bom, você deve estar se perguntando qual a importância de classificar e identificar tão pormenorizadamente uma doeça. Eu respondo: -O melhor tratamento...
Radioterapia, quimioterapia ( com uma ou múltiplas droas ), imunoterapia, radio-imunoterapia e até a cirurgia podem ser utilizados... o arsenal terapêutico é vasto, podendo comportar inúmeras associações, que poderão ser individualizadas. Ou seja, uma diferenciação mais refinada de doença poderá oferecer uma modalidade mais precisa de tratamento.

A incidência dos Linfomas vem aumentando por motivos ainda pouco claros e isto já justifica todo o esforço para o melhor entendimento da doença.

O sucesso em novas modalidades terapêuticas e consequentemente do prognóstico da doença se deve, em grande parte, a multidisplinaridade das equipes envolvidas. O hematologista/oncologista, hematopatologista, radioterapeuta, infectologista, radiologista, hemoterapeuta, transplantólogo, etc, formam uma cadeia interligada de informações e conhecimento que estarão diretamente envolvidas na busca da melhor abordágem.

Receber um diagnóstico de Linfoma pode ser uma das notícias mais avassaladoras... A sensação de irrealidade e o trauma gerado a partir do momento do diagnóstico permanecem durante o tratamento e muito tempo após o seu término. A angústia e o medo de um retorno da doença se mantêm presentes por toda a vida... seja de forma consciênte ou no profundo das emoções escondidas. Cabendo a nós médicos oferecer o melhor alicerce de conhecimento e informação possível, tentando reduzir ao máximo o impacto emocional, oferecendo a certeza de que estamos diante de uma doença que conhecemos muitos pontos fracos e que somos capazes de vencer a maioria das batalhas.


Como disse Tagore em Pássaros Errantes, "O caminhar está em levantar o pé, como em pousá-lo no chão"

Publicado por DraftCraft app

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Bloodless Surgery



Cirurgia sem Sangue:

Uma realidade a ser praticada!


Divulgue essa ideia...

sábado, 6 de outubro de 2012

Filho Meu - A Oração


Filho meu que estais na Terra,

Apesar da santidade de meu nome, Eu deixo que tu fales comigo e Eu te escuto... Conheço teu nome e o pronuncio bendizendo-o porque te amo e te aceito.

Te apresento o Meu Reino, no qual tu és meu filho, e tu nunca estarás só porque Eu serei em ti, assim como tu serás em mim.

Que se faça a minha vontade nos Céus assim como na Terra, porque minha vontade é que tu sejas feliz.


Terás o pão para hoje, não te preocupes, porém lembra-te que não é apenas teu, e te peço que sempre o compartilhes…

Desculpo todas tuas dívidas e ofensas, e mais, Eu as perdôo... pois mesmo antes que às cometas, e eu já sei o que tu farás... Só peço que, da mesma forma, perdôes aos teus devedores... e também a ti...

Sei que terás tentações e te ajudarei a enfrenta-las, para que tu não caias.
Filho, confia sempre em mím... pois te darei o livramento e a força para que te apartes do mal…

Meu reino, poder e glória são eternos, assim como minhas bençãos e meu amor por ti...

Que assim seja!




Publicado por DraftCraft app

sábado, 29 de setembro de 2012

Sobre Sentidos - O sobe e desce do olhar



Um laboratório de pesquisas nos Estados Unidos selecionou um grupo de voluntários e os fez usar óculos inversores, ou seja, óculos com um jogo de lentes que transmitiam uma imagem invertida, no sentido longitudinal.

No início tudo ficou confuso, pois as imagens de fato apareciam invertidas ( verdadeiramente de "cabeça para baixo" ) causando náuseas, dificuldade de coordenação motora e até alguma confusão mental...

Depois de algum tempo - em torno de 03 dias - o grupo, apesar do uso dos óculos, começou
a ver as coisas de "cabeça para cima", como de fato elas são em nossa visão normal. Houve uma adaptação tão perfeita da, dita, nova realidade que alguns chegaram até a pilotar aviões!!!!!!! ( será ? )

De fato, adaptando-se a essa situação anormal, o cérebro reorganizou as imagens da visão, não só quando o grupo de voluntários começou a usar os óculos inversores, mas também quando deixou de usá-los... ou seja, quando o grupo de voluntários retirou os óculos, tudo ficou novamente de "cabeça para baixo"...
A visão que antes era normal ficou outra vez invertida, e os voluntários tiveram de passar, novamente, pela experiência de readaptação, a fim de ver de corretamente ( e sem óculos ) outra vez...

Pois bem... Onde quero chegar...

O cérebro, foco e fonte de nossa razão e de nosso racional... é onde traçamos condutas, modos, modelos e esteriotipamos nosso olhar... É um poderoso órgão... Centro regulador de nosso pensar e agir...
Tão poderoso, tão fantástico... mas falho em discernir o básico: Cima / Baixo ... e confunde o sentido do Lá e do Cá...
Um simples jogo de lentes, confunde e até perverte nossa visão, e continua pervertendo mesmo quando o jogo de ótica não está mais lá!!!

Somos dependentes de nosso cérebro... racionalizamos muito e sempre... Creditamos um poder quase sobrenatural à essa parte do corpo... e as vezes ela se engana, falha e erra!!!

Não quero e não vou permitir que meu cérebro leve o crédito por todas as minhas decisões e atitudes ... pois ele se "confunde" muito facilmente, até com um jogo de lentes... e pior, mesmo quando as lentes não estão mais lá... ele continua bagunçado!!!


Vou seguir meu caminho não só pelo falível e racional cérebro... mas também vou seguir meu coração, meus sentimentos, minha percepção metafísica das coisas... que com certeteza são tão confiáveis quanto o cérebro e muito menos sensíveis aos óculos...

O cérebro, tão poderoso... é, na verdade, tão ingênuo que facilmente se confunde...
O coração, tão frágil e sentimental... Raramente se engana!
... e tudo isso... graças ao Bom Deus, é perfeito mesmo assim!







Em Tempo: Este texto foi extraído de uma carta que escrevi ha algum tempo... e que até hoje me vira a cabeça...

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Um Sonho...

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“Sonhei que você sonhava comigo. Parece simples, mas me deixa inquieto. Cá entre nós, é um tanto atrevido supor a mim mesmo capaz de atravessar — mentalmente, dormindo ou acordado — todo esse espaço que nos separa e, de alguma forma que não compreendo, penetrar nessa região onde acontecem os seus sonhos para criar alguma situação onde, no fundo da sua mente, eu passasse a ter alguma espécie de existência. Não, não me atrevo. Então fico ainda mais confuso, porque também não sei se tudo isso não teria sido nem sonho, nem imaginação ou delírio, mas outra viagem chamada desejo.”

- Caio Fernando Abreu.





Houve uma época em que andar com livros de Gabriel Garcia Marquez debaixo do braço e recitar versos de Pablo Neruda era fazer parte da vanguarda intelectual do início dos anos 80... 
Continuo completamente apaixonado por Garcia Marquez e sei muitos poemas de Neruda de cor... 

Era a revolução cultural Latino-Americana! 

Vivi como "adolescente intelectual" nessa época... Tivesse 10 ou 15 anos a mais, seguramente teria entrado nas fileiras da luta armada contra as injustiças sociais, vividas, vistas, presenciadas em minhas andanças como nordestino...
Minha verve revolucionária ainda não se esvaiu de meu sangue latino... Dou e continuarei dando muito de mim por sonhos... Qual guerrilheiro: pueril, infante...  enquanto a anemia da morte não me atingir...

Confesso que nunca gostei das músicas de Mercedes Sosa, mas tenho bem guardado meus CDs do argentino Piero e da "Nueva Trova Cubana" e por vezes relembro, com doce nostalgia de Sylvio Rodriguez e canto com meus botões: -Mi Unicornio Azul Ayer Se Me Perdio... - quando inevitavelmente choro...

O importante é manter o sonho revolucionário vivo e a eterna disposição para dar o próprio sangue... Independente de onde esteja a revolução, ou mesmo se existe alguma...  
Independente de onde esteja o sonho... mesmo que Borges e Garcia Marquez já tivessem escrito as palavras de Caio Fernando Abreu (- que abrem essa postagem -) muito tempo antes... 
O importante é que o meu sonho pode ser sonhado no sonho de outro... 
Mesmo que para isso os sonhos subam as serras e paguem pedágios na BR Pres. Dutra... 
-Pedágios? -É, pedágios, sim... e dai? Também sei que não existem unicórnios... 






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quarta-feira, 15 de agosto de 2012

(Roubado) -Em meu aniversário... Assuero Silva



Hoje é aniversário do Lucas de nossa vida. O médico mais amado. Meu amigo e parceiro em alguns trabalhos já realizados como seminários e debates – Dr. Assuero Silva.
Lá estivemos em um encontro que poderia dar-se em um congresso de medicina, hospital ou coisa parecida dado aos inúmeros representantes da área de saúde. Alguns poucos mortais, doentes ou não no momento, entregaram ali seu respeito e admiração pela cativante personalidade do nosso aniversariante.
Presentes foram poucos, presenças foram muitas. Aprecia canetas e motos, gostos raros e caros mas o mais importante não faltou. Respeito, admiração, abraços.

Todos sabemos que médicos brincam um pouco de deus. É verdade. Penso isso mas logo percebo que se eles pensam que o fazem só porque dão umas ordens aqui e ali que nem são sempre seguidas.

Deus, deus mesmo é quem tem filhos pequenos. Digo isso e explico. As metáforas cristãs de que Deus é o pai e nós os filhos se elucida. Os filhos suplicam. Os pais decidem. Mudam de casa. Mudam os filhos de escola. Decidem as férias. Fazem o diabo. E os pequenos seres podem apenas protestar ou agradecer a deus a sorte que lhes é imposta.
“ – Você não vai para a casa da Paulinha hoje.”
“ – Mas por quê?”
...os pobres pedem, suplicam por uma explicação mais lógica mas os desígnios do pai não são os dos filhos. Sempre resta a eles a possibilidade de entrar com o recurso para com o outro pai ou mãe correndo o risco do famoso círculo da responsabilidade empurrada. No entanto, a fase de filhos pequenos é a fase do ciclo vital com maior risco e incidência de separação. Seja porque o filho já fora encomendado na falência do casamento onde a própria relação homem-mulher já estava abalada. Ora porque os conflitos e mudanças impostas pelos traumas do nascimento e crescimento das crianças seja demais para estrutura em questão. O fato é que percebemos o crescimento do fenômeno que mais nos interessa na modernidade – a família monoparental. A Produção independente, mães solteiras, guardas compartilhadas e número crescente de divórcios geram famílias onde a responsabilidade de criação do filho pesa somente sobre um dos pais. O que tem tornado tudo mais complicado para pais e crianças.

Enquanto cresce a complexidade só o que peço ao único e verdadeiro Deus é que me dê sabedoria do alto nesta missão e que “mesmo sendo maus, consigamos dar boas dádivas aos nossos filhos” – disse Jesus.
É o mais poderoso tipo de amor que conheço... e que um dia nosso amigo possa se ver diante desta responsabilidade divina.

Rio de Janeiro, 26 de Fevereiro
Postado por Liliane Cunha



sábado, 21 de julho de 2012

Prescrição Médica - Para Um Médico





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Se me fosse permitido prescrever algo para os novos médicos, prescreveria a atenção às questões da política e da sociedade... com profunda atenção às questões do poder e sua ingerência na saúde pública.

Prescreveria a leitura... -Leiam poesia e medicina com a mesma paixão!


Prescreveria aos recém formados para que, sem medo, atravessem as fronteiras do conhecimento e jamais deixem de cogitar outras maneiras de pensar, de agir e de compreender a vida...


Prescreveria a atenção às ciências, todas as ciências... e o prazer em buscar, ensinar e dividir vivências e sapiências...


Prescreveria a vigilância ao caráter humanista, da arte que exercemos, frente ao assédio da indústria e dos ganhos intermediados por uma ética questionável...


Finalmente prescreveria zelo ao exercer a arte de cuidar... 
...mas sobretudo prescreveria o amor ao próximo, como a mais valiosa letra no sacerdócio de aliviar a dor e produzir o bem...










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sábado, 14 de julho de 2012

Sobre o Morrer


 



Em diversas culturas, das mais simples até as mais complexas, a morte é ritualizada. O cerimonial inclui a reunião da família e amigos em torno do doente. Pode até acontecer do doente não morrer. Mas uma vez anunciada a doença segue-se uma peregrinação de parentes para a casa ( e de forma contemporânea para o hospital ) do "pré-morto". Alguns, os que moram mais distantes, mudam-se para a residência do enfermo e assumem as tarefas cotidianas. Deixando à família nuclear o cuidado de "velar o doente". Vai-se morrendo aos poucos e vai-se anunciando a morte. Se não morrer, ao menos valeu o ensaio...
 
Muitos defensores da Eutanásia costumam recorrer a esse modelo antropológico para justificar/qualificar a morte ritualizada, a morte assistida e a morte prenunciada como "boa morte". João Cabral de Melo Neto, com alma de poeta, já nos demonstra que o sentimento de morte, porém, é sempre igual. Boa ou ruim, é sempre "morte severina"



...morremos de morte igual mesma morte severina: que é morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia - de fraqueza e de doença é que a morte severina ataca em qualquer idade, e até gente não nascida...



 
Mas esta visão diante da morte não é tão romântica. E foi o próprio romantismo quem mais dramatizou a morte. Há alguns Salmos (30, 31e 32), textos poéticos que são  fruto de uma cultura tribal, judaica - parte importante de nossa herança cristã ocidental - que demonstram que mesmo a morte ritualizada não é tão tranquila assim...
 
Em um dos salmos bíblicos, o autor exclama: "tu me curaste...fizeste subir a minha alma da região dos mortos, conservaste-me a vida, dentre os que descem à cova". Em outro, lemos:"sou como um vaso quebrado, esquecido como um morto de quem hão há memória". 
 
A luta entre a vida e a morte - e o mais importante a busca da superação da morte, sintetizada na Vida Eterna, fazem parte do imaginário judaico-cristão-ocidental.
 
Se queremos traduzir isto de uma maneira filosófica, o empirismo e até mesmo o pragmatismo, também são respostas humanas diante da morte.

Uma anedota extraída do humor judaico já demonstra um patriarca olhando a família em sua volta e perguntando, à beira da morte: "-Quem está no loja? ". Mais do que engraçado, traduz uma filosofia de vida de quem nega a morte, dia-a-dia, optando pelo movimento do capitalismo e pelo ritual do cotidiano...
 
Na Bíblia, o Livro de Jó também demonstra que a ritualização da morte não a torna mais palatável para o doente. Isso é importante para que nós possamos entender a razão pela qual no germe do Ocidente há uma postura diferente do "Oriente"... Nós, ocidentais e culturizados, não aceitamos com largueza a idéia de que alguém simplesmente possa desligar a consciência e abandonar a vida, rejeitando o casulo material e carnal no qual um ser espiritual estaria aprisionado. No fundo, lutamos contra a morte e pela vida, suspiro a suspiro, célula por célula, átomo por átomo e até espiritualmente...

René Descartes disse que a unidade de tudo estava na razão separada da matéria...
Comparava o corpo humano ( e o viver ) a uma máquina, e o doente era como um
relógio defeituoso... O homem passou a ser dois: Corpo e Alma... O que
era interessante tanto para a Igreja, como para Ciência. Descartes também
trouxe a concepção do conhecimento das partes, para entender o "todo".

Pois bem Senhores, parece que evoluímos muito, a partir dessa visão cartesiana da
medicina e do viver... sem contudo encarar o morrer com a mesma tranquilidade...

Michel Foucault soube detalhar, de forma primorosa, a vida e o indissolúvel que é o ser SER HUMANO... Apresentando um colorido distinto sobre a morte... trocando o "império do olhar" pela "arte de ver"... Sendo assim, vivenciar a morte é que permite a valorização de nossa existência, de nossa vida.

A morte não pode ser um pensamento sobre o porvir... ao contrário... o pensamento sobre a morte é um meio para realizar o grande circuito da memorização pelo qual totalizaremos toda a nossa vida e a faremos aparecer como ela é...

Para isso é necessário ao homem retornar, através da memória, ao passado e perceber o que ele construiu até então. Observar o que há de positivo ou negativo, e se for oportuno, reconstruir, perdoar, criar... Sendo assim, desde a vida ele poderá construir uma memória de qualidade, virtuosa, que o ensinará a morrer e que garantirá a verdadeira sobrevivência à morte.

domingo, 24 de junho de 2012

A Medicina Não Examinada Não Merece Ser Exercida







A Medicina será completa quando interligar o estudo científico do homem e seus valores humanos... A Medicina será completa ao oferecer um campo para a resolução entre abstrato e o concreto, entre as ciências e toda a humanidade... a procura do conhecimento e a procura do bem-estar...

Dr. Assuero Silva - Por uma Medicina Sustentável - Rio + 20, 21/06/12











O ser humano é biologicamente frágil... Apesar da complexidade de seu funcionamento e da constante evolução científica afim da preservação da espécie, bastam, por exemplo 3 a 5 minutos com supressão de oxigênio que iniciaremos lesões cerebrais possivelmente irreversíveis, basta o contato com alguns vírus mais "virulentos", que comprometeríamos milhares de vidas em poucos dias. Bastam exposições demasiadas ao frio, ao calor, a seca ou a umidade excessiva. Não bastasse tudo isso, sofremos pela inanição ou pelo contrário, pelo excesso de comida... Ou seja: Somos fragilmente "embalados" apesar de maravilhosamente construídos...

Entretanto, a capacidade da medicina moderna é tão impressionante e penetrante que todos nós médicos somos impactados pela maneira que construímos a medicina e justificamos suas finalidades e seus propósitos, por vezes perdendo o tênue limite entre ser o salvador ou o algóz do que definimos cuidar.

Cabe a medicina e seus executores o papel de entender os mecanismos existentes no processo das morbidades e seu alívio ou cura. Cabe ao médico evitar a extinção do ser humano, aliviar suas angústias, ou dores e colaborar nas medidas preventivas. Quando me deparo com um jovem médico ( por vezes um ex-aluno ou um ex-tutorado ) que não exerce estes princípios básicos e usa sua carreira para ascensão social ou política ou ainda que utiliza de seu sua influência médica para em benefício próprio angariar fundos com práticas médicas contestáveis e não científicas, eu me sinto traído!

A ciência médica em detrimento das outras é uma das mais nobres e mais apaixonantes de ser exercida... Para isso temos que senti-la... Sua profundidade, o que ela representa... Vivencia-la, participando ativamente do processo de vida e morte de outro ser humano... As vezes devido a esta complexidade surgem muitas frustrações, conflitos e todo dissabor que uma relação profundamente intima proporciona...

Ser médico não é ter uma postura soberba e intocável, não é vestir o tradicional branco, jaleco, pijama cirúrgico ou usar uma gravata importada e por isso sentir-se diferente dos demais... Ser médico não é falar pausadamente com frases prontas e linguajar erudito, vivendo em função de uma imagem. Ser médico é aceitar desafios diários e obrigações impensáveis... Ser médico é ser salva-guarda da raça homana e humildemente sentir o peso e a responsabilidade disso tudo...

Noites insones, livros, artigos, revistas, resumos... buscas por diagnósticos pouco claros... o constante assédio da indústria farmacêutica, gerando um conhecimento (?) pleno de interesses velados e escusos... Por outro lado as rotinas massacrantes, muitas vezes com queixumes que representam muito mais doenças "preveníveis" ou impensáveis no século XXI... verdadeiras patologias sociais advindas da doença moral de nossos políticos e de nossas políticas...
Rotas, Rotinas, Protocolos e Planilhas... gerando indicadores ... que talvez não gerem saúde ... mas seguramente nos afastam mais e mais da beira dos leitos e do olhar dos pacientes...

Examinar diuturnamente a medicina e refletir filosoficamente sobre a vida é um exercício de humanidade, buscando evoluir nas relações mas principalmente buscando a evolução da sociedade e o quão saudável ela pode ser...




Na mitologia, Asclépio o "Pai da Medicina" aprendeu a arte de curar... Tornou-se mestre... Ensinou... Desafiou a morte... Foi condenado a sair do Olimpo... Levado ao Hades (um inferno)... Resgatado, habita  nas estrelas e caminha entre os homens, ensinando medicina e aliviando-nos das doenças...

Que uma "Asclépio" maior nos faça sair do Olimpo nebuloso de convencimento e nos leve ao estado de reflexão permanente da Ciência-Arte que é a verdadeira medicina... Sem as tentações mercantilistas, financeiras ou das "superespecializações"... que é o caminho certeiro ao Hades de ignorância e desprezo à humanidade.




Medicina é ciência, arte e virtude, integralmente unidas nas atividades diárias do médico. Desarticular um dos membros dessa tríade é desmembrar a Medicina - cuja característica essencial é relação especial que une um ao outro. Quando isso acontece, ai poderemos ter um cientista, um artista ou um prático, mas jamais teremos um médico.

Edmund Pellegrino - The Anatomy of Clinical Judjments 

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quinta-feira, 14 de junho de 2012

As Panacéias da Vida




O que você acharia se lhe oferecessem uma substância que prevenisse a ocorrência de grande parte das doenças que nos afligem, como o câncer e o mal de Alzheimer, e que, ao mesmo tempo, fosse capaz de conservar a sua juventude e seu vigor sexual? E que, além disso, fosse totalmente natural e pudesse ser obtida a um baixo custo e sem efeitos colaterais, por meio do simples consumo diário de algumas pílulas?

Para muita gente, esse tratamento existe e está ao alcance em farmácias e até supermercados... A cada dia milhões de pessoas tomam convencidas de que essas substâncias podem conservar sua saúde e mesmo melhorá-la, movimentando uma indústria bilionária.

São elementos nutritivos essenciais para a vida que possuem na sua estrutura compostos nitrogenados os quais o organismo não é capaz de sintetizar e que, se faltarem na nutrição, provocarão manifestações de carência ao organismo.

As Aminas da Vida - que nome mais tentador!!!

VITAMINAS...

O corpo humano deve receber as vitaminas através da alimentação, por administração exógena (injeção ou via oral), ou por aproveitamento das vitaminas formadas pela flora intestinal (algumas vitaminas podem ser produzidas nos intestinos, pela ação da flora, sobre restos alimentares). A falta delas pode ser total - avitaminose -, ou parcial - hipovitaminose. Em ambas as situações, podem surgir doenças carenciais.

Entretanto, o consumo desenfreado e sem critérios dessas substâncias não tem qualquer efeito benéfico para o bem-estar e podem até causar problemas...

Diferentemente dos carboidratos, lipídeos e proteínas, elas não fornecem energia ou são empregadas como “materiais de construção” biológicos. Por outro lado, há mais de um século sabe-se que diversas patologias não são causadas por agentes infecciosos, e sim por deficiências vitamínicas. Compreendeu-se que as vitaminas são essenciais para a regulação de nossos processos fisiológicos, pois atuam como coenzimas e grupos prostéticos – moléculas que,ao se associarem com enzimas, tornam-nas ativas.

Como no caso de outros nutrientes, a deficiência de vitaminas pode se originar de uma dieta pobre ou desbalanceada ou ocorrer devido a problemas na absorção no trato digestivo, transporte, estocagem ou conversão metabólica. Embora a deficiência seja muito mais comum em países pobres, ela possui uma prevalência surpreendentemente alta nos países ricos, estando muitas vezes relacionada com a ingestão de uma dieta tipo "junk food" ou lixo enlatado... O alcoolismo e o consumo de drogas são fatores que também podem contribuir muito sócio-culturalmente no processo...

As vitaminas estão envolvidas com eventos chave de nosso metabolismo. Vejamos o exemplo da vitamina A, sintetizada a partir de carotenóides e retinóides presentes no leite e em outros produtos lácteos, no fígado, ovos e no pescado. Ela previne a ocorrência de deficiências óticas como a xeroftamia (queratinização da conjuntiva), a queratomalacia (redução e ulceração na córnea), cegueira, deficiências imunológicas, problemas reprodutivos e de crescimento. Juntamente com a desnutrição protéico-calórica, a carência de vitamina A é a desordem nutricional mais comum no mundo e acomete entre 5 e 10 milhões( !!! ) de pessoas anualmente, causando a cegueira de 250 mil indivíduos a cada ano.

Já a vitamina C, encontrada em frutas cítricas, tomates e em vegetais como couve e brócolis, é um poderoso antioxidante e agente redutor. Essa vitamina elimina os radicais, evitando o câncer e o envelhecimento precoce. Além disso, a vitamina C participa do metabolismo do colágeno e na síntese de neurotransmissores e, de uma forma ainda pouco compreendida, das reações imunes...

A vitamina E, encontrada nos vegetais, nos grãos, nos óleos e peixes, também atua como antioxidante. Está estabelecido que sua deficiência pode causar degeneração do sistema nervoso, alterações musculares e anemia hemolítica em crianças. Devido à ampla distribuição dessa vitamina nos alimentos, sua carência é um fenômeno raro, mesmo em países pobres... Confesso que nunca vi ou soube de um caso...

Por sua vez, a vitamina D, presente no pescado, grãos e metabolizada na pele na presença de luz solar, evita a ocorrência de raquitismo infantil e, em adultos, da osteomalacia (perda de massa óssea causada pela carência de cálcio na dieta) e da tetania hipocalcêmica. Essa vitamina está associada com a manutenção dos níveis dos níveis sanguíneos adequados de cálcio e fosfato responsáveis pela mineralização óssea normal.

Uma dieta diária variada e baseada em frutas, verduras, grãos e fontes de proteína deve proporcionar todas as vitaminas necessárias para a manutenção da estabilidade de nosso organismo. E somente em casos específicos, como na gravidez ou doenças degenerativas, devem ser administradas doses extras de vitaminas.

Porém, um homem propôs mudar, há cerca de quarenta anos, a visão que tínhamos das vitaminas e de seu papel em nossa saúde. Tratava-se de ninguém menos que Linus Pauling... uma grande estrela da ciência e único homem a ganhar dois prêmios Nobel em áreas diferentes, química e paz... e isso não é pouco!!! Alguém que tenho verdadeira paixão... Um ícone, junto com Dr. Osler... ( mas isso é outra história... )




Dono de uma enorme inteligência e carisma, Pauling utilizou toda a sua credibilidade para difundir a idéia de que o consumo de doses maiores de vitaminas – várias vezes mais elevadas que as doses diárias normais – poderia evitar a ocorrência de dpenças e até nos proporcionar uma vida mais saudável. Pauling, inclusive, passou a empregar nele mesmo sua teoria e consumiu durante a vida quantidades diárias enormes de vitamina C, na certeza de que esse nutriente iria fortalecer seu sistema imune e prevenir o resfriado e outras doenças.

Pauling e seus seguidores contribuíram para difundir a crença de que o consumo de vitaminas poderia, sem efeitos adversos, zelar por nosso bem-estar físico e mental.

Mas Pauling, que sempre será um ídolo para mim, parece ter negligenciado o método científico... e pesquisas posteriores demonstraram que o consumo diário de vitamina C não evita a ocorrência de resfriados ou mesmo de outras doenças. Isso ocorre porque nosso organismo é incapaz de absorver doses elevadas dessa vitamina. Além disso, seu consumo elevado pode ocasionar efeitos colaterais como uricosúria (excesso de ácido úrico na urina), absorção aumentada de ferro, acidose sistêmica e hemólise infantil.

Outras pessoas consomem vitaminas diariamente para evitar os radicais livres. Porém, esse procedimento normalmente mostra-se inócuo, pois nosso organismo não é capaz de absorver as doses elevadas, podendo inclusive provocar efeitos adversos como distúrbios gastrointestinais, interferência na captação das vitaminas A e K e mesmo predisposição para infecções intestinais em crianças.

O consumo excessivo da vitamina A, por outro lado, pode representar perigos para a saúde. Algumas fortes evidências indícam que doses elevadas desse elemento consumidas diariamente durante períodos prolongados por fumantes podem aumentar em até 30% o risco de câncer de pulmão!!!

Esses resultados mostraram que vitaminas não são tão inocentes ou "boazinhas" e incapazes de causar males. As vitaminas são substâncias cujo consumo desregrado envolve consequências inesperadas e enormes perigos e, por isso, devem somente ser receitadas de forma criteriosa por médicos.

De todas as formas, tenho certeza, que sendo o Amor a Vitamina da Vida, nada trata bem mais e melhor ao homem que a felicidade... Que assim seja...


"Que venham os anos, prentendo comê-los com sabedoria e um pouco de vitamina..."
( Lou Albertoni )
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sábado, 9 de junho de 2012

Sobre a Anemia e a Foice Racial.



Todos sabemos que as doenças não só têm importância médica, como também fortes simbolismos sociais e culturais. A maneira como as enfermidades são percebidas e descritas influencia o modo como elas são diagnosticadas e tratadas, assim como a estigmatização dos pacientes.

As hemácias em formato de foice -“falciformes”- foram descritas pela primeira vez por James B. Herrick, em 1910, em um paciente negro, criando um primeiro paradigma étnico.
Em 1923, o pediatra Virgil Sydenstricker publicou um artigo chamando atenção para o fato de a doença ser familial, afetar igualmente os dois sexos e provavelmente acometer apenas pacientes negros. A partir de então, firmou-se no cânone médico a conexão entre anemia falciforme e “raça negra”.  A associação inicial da doença com uma “raça” teve conotações políticas e ocorreu como parte do fenômeno de “patologização” do negro americano, bem descrito por Melbourne Tapper em seu livro In The Blood: Sickle Cell Anemia And the Politics of Race (“No sangue: anemia falciforme e a política racial”).

Posteriormente, na década de 1970, a conexão foi adotada paradigmaticamente pelo movimento negro americano, em especial pelo cardiologista Richard Williams no seu livro Textbook of Black-Related Diseases (“Livro-texto de doenças do negro”). É curioso que o co-autor de Williams nesse tratado tenha sido nada mais, nada menos que Martin Luther King, que não era médico. Sua participação nos remete à importância social e cultural das doenças e às conseqüências da forma como elas são percebidas e apresentadas. 




Entretanto, a despeito das "evidências" históricas, a distribuição populacional da anemia falciforme e especialmente a sua maior prevalência em indivíduos negros tem nada a ver com "raça" ( ou muito melhor referido: com fatores étnicos ).  Apenas na década de 1950 ( !!! ) que verdadeiramente foram comprovados os dados da associação entre malária e anemia falciforme, quando o médico inglês Anthony Allison identitificou, em Uganda, que crianças heterozigotas falciformes tinham 76% mais chances de sobreviver ao primeiro ataque de malária, quando comparadas com as crianças sem qualquer traço falciforme... "Provavelmente uma alteração bioquímica muito pequena pode conferir a uma espécie hospedeira um grau substancial de resistência a um parasito bem adaptado. Isto tem um importante efeito evolucionário. Significa que é vantajoso para o indivíduo possuir um fenótipo bioquímico raro [...] E significa, também, que é uma vantagem para a espécie ser bioquimicamente diversa e mesmo mutável em referência a genes envolvidos na resistência às doenças.”  - J.B.S. Haldane em 1949 ( perfeito !!!!!!! ) 

Mais tarde tudo isso ficou sacramentado pela óbvia correspondência geográfica entre a prevalência da malária e a frequência do gene falciforme na África.  Deve ficar bem claro, então, que a anemia falciforme não é uma "doença de negros" nem uma “doença africana”, mas sim uma doença eminentemente geográfica, produto de uma estratégia evolucionária humana para lidar com a malária causada pelo Plasmodium falciparum.  

Analogamente, a fibrose cística ou mucoviscidose é outra doença geográfica, desta vez européia, que emergiu como uma provável estratégia evolucionária de resistência à febre tifóide. Já a doença de Tay-Sachs, especialmente vista em judeus asquenazitas, parece estar ligada à resistência à tuberculose.  Mas deve ficar claro e evidente que a fibrose cística não é uma “doença européia”, nem a doença de Tay-Sachs é uma “doença judaica”. Altas freqüências da fibrose cística, por exemplo, já foram observadas em algumas populações do Oriente Médio e da África e a doença de Tay-Sachs é vista em elevada freqüência em canadenses franceses da província de Quebec.  Podemos, com esses exemplos, perceber o papel fundamental das doenças infecciosas na evolução do genoma humano e a notável importância do território endêmico dessas enfermidades na seleção de certos genes em determinadas populações humanas. É totalmente desnecessário invocar conceitos arcaicos como “raça” e “doenças raciais” para explicar a variação de prevalência de doenças genéticas em diferentes grupos populacionais.

Portanto qualquer estígma ou preconceito associado a uma doença específica tem que ser obrigatoriamente revisto sob o ponto de vista científico e humanista. Antes passamos por reflexões de tolerância e aceitação... Identificação de que a tolerância é, antes, expressão da aptidão para a paz, que exigência dirigida a outrem. Na realidade, é uma exigência para si mesmo...

Na Bíblia o livro do Apocalipse fala dos Quatro Cavaleiros: Morte, Guerra, Fome e Pestilência. De forma contemporânea lembrando dos conflitos na Irlanda do Norte, no País Basco, em Ruanda e nos Bálcãs no final do século passado e, após o 11 de setembro, a invasão do Afeganistão e do Iraque no início do século 21, acredito que vamos ter de adicionar pelo menos quatro novos cavaleiros à "tropa" do Apocalipse: Racismo, Xenofobia, Ódio Étnico e Intolerância Religiosa. Para combater esses novos inimigos da humanidade, precisamos promover na sociedade a valorização da diversidade em todos os seus níveis, iniciando em nossos corações e terminando nas ciências... Com uma foice em toda a intolerância!!!!

  " Para Conhecer O Mundo, Primeiro Canta A Tua Aldeia " (Dostoieviski)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Sangue do Meu Sangue

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Amar: 
Fechei os olhos para não te ver
e a minha boca para não dizer...
E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei,
e da minha boca fechada nasceram sussurros
e palavras mudas que te dediquei...
O amor é quando a gente mora um no sangue do outro. ( M. Quintana )



















Um dos valores mais arraigados de nossa cultura é o da consanguinidade, ou seja, o da descendência ou parentesco pelo "sangue".Nossa árvore genealógica... Embora hoje recoberta pela ideia dos genes, essa representação "sanguínea" nos liga pessoa-a-pessoa numa base naturalista de nossa visão de mundo: 
-Somos feitos da matéria combinada de nossos pais e mães; eles, de seus respectivos pais e mães, e assim até chegarmos em Adão e Eva...


Mas no final de contas quem é realmente parte de nosso sangue?

A cultura ocidental privilegiou um sistema chamado de bilateral,  pois consideramos consanguíneos todos os parentes pelo lado do pai e da mãe e a afinidade se restringe aos parentes da esposa (ou esposo, evidentemente), encontrados provavelmente nos termos da ‘ideologia do amor’.
Essa é uma das "ancoragens" históricas para nossa representação dos vínculos de sangue. Um pouco de um lado, outro pouco do outro, e estamos engatados em uma árvore genealógica frondosa, com galhos idênticos de ambos os lados...


A pergunta continua: Quem faz parte do meu sangue?

As tramas do parentesco são, porém, muito mais complexas do que apenas a regulação da procriação...
Muito mais do que um simples transmitir o sangue...
Elas lidam com os fatos da procriação, mas também envolvem redes de significado muito elaboradas, carregadas de tensões e conflitos, e muito estranhas aos nossos olhos...
Há sociedades poligâmicas; há sociedades que praticam o infanticídio generalizado, com adoção de filhos de uma casta escrava; há sociedades que praticam a reprodução incestuosa sistemática em suas casas reais; há sociedades em que casamentos homossexuais das elites se combinam com a adoção de descendentes oficiais nascidos na plebe; há sociedades em que o primeiro filho de uma mulher deve ser gerado por um amante cuja identidade deverá permanecer secreta para o filho; e assim por diante...

Nós, brasileiros, latinos, ocidentais não consideramos estranhos, no entanto, os nossos próprios costumes, que tendem a desvalorizar as adoções, por exemplo, e que levam muita gente a gastar rios de dinheiro e rios de lágrimas para conseguir levar a cabo uma gravidez assistida (inseminação artificial, barriga de aluguel etc...) que lhes garantirá um herdeiro "de sangue", "legitimo"... 
-Temos medo de sermos considerados "ilegítimos" ou "bastardos"... De não termos o sangue de nossos pais...


Todas as coisas são interligadas, como o sangue que nos une.
O homem não tece a teia da vida. Ele é apenas um fio dela.
O que fizer à teia, fará a si mesmo. ( Chefe Seattle )

De todas as formas sou filho, irmão, primo, tio "de sangue" de muitos... e tenho meu sangue correndo unido no coração de alguns... Pois esse é o verdadeiro laço de sangue, aquele que não refere cosanguinidade como marco ou qualquer laço genético como ícone, posto que a verdadeira união surge das graciosas teias do amor...

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sexta-feira, 25 de maio de 2012

Sangue - Dicionário


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Nome Masculino




Líquido constituído por uma parte fluida (o plasma) e por elementos celulares sólidos (glóbulos e plaquetas), que circula nos vasos sanguíneos e tem por função servir de veículo aos elementos nutritivos, a substâncias gasosas e aos produtos de excreção;



Figurado: Vida; Existência
Figurado: Família; Raça; Progenitura; Parentesco;
Figurado: Natureza
Figurado: Suco; Sumo;
Fisiologia: Sangue arterial sangue oxigenado nos pulmões e que circula nas artérias e veias; Sangue venoso sangue que perdeu oxigénio, rico em anidrido carbónico;


Sangue Azul: Nobreza, Fidalguia;

Chorar Lágrimas de Sangue: Ter profundo desgosto;

Estar na Massa do Sangue: Ser natural, Ser da própria índole;

Ferver o Sangue: (a alguém) Enfurecer-se, Ficar impaciente;

Ficar Sem Pinga de Sangue: Apanhar um grande susto;

Laços de Sangue: Parentesco
 
Subir o Sangue à Cabeça: Enfurecer-se, Irritar-se;

Ter Sangue na Guelra: Ter muita vida...


Sangue-Frio: Serenidade e autodomínio perante situações perigosas ou difíceis; controle das próprias emoções; a sangue-frio de forma deliberada e imperturbável, sem anestesia; perder o sangue-frio perder a calma.






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Sangueira



1.       Grande quantidade de sangue derramado

2.       Chacina
3.       Sangue das reses mortas
4.       Regionalismo chouriço de sangue
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