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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Hematologista Clínico com paixão por Propedêutica e pela Filosofia - Consultório: * Tel. 21 38160545 / 21 988389220

domingo, 24 de junho de 2012

A Medicina Não Examinada Não Merece Ser Exercida







A Medicina será completa quando interligar o estudo científico do homem e seus valores humanos... A Medicina será completa ao oferecer um campo para a resolução entre abstrato e o concreto, entre as ciências e toda a humanidade... a procura do conhecimento e a procura do bem-estar...

Dr. Assuero Silva - Por uma Medicina Sustentável - Rio + 20, 21/06/12











O ser humano é biologicamente frágil... Apesar da complexidade de seu funcionamento e da constante evolução científica afim da preservação da espécie, bastam, por exemplo 3 a 5 minutos com supressão de oxigênio que iniciaremos lesões cerebrais possivelmente irreversíveis, basta o contato com alguns vírus mais "virulentos", que comprometeríamos milhares de vidas em poucos dias. Bastam exposições demasiadas ao frio, ao calor, a seca ou a umidade excessiva. Não bastasse tudo isso, sofremos pela inanição ou pelo contrário, pelo excesso de comida... Ou seja: Somos fragilmente "embalados" apesar de maravilhosamente construídos...

Entretanto, a capacidade da medicina moderna é tão impressionante e penetrante que todos nós médicos somos impactados pela maneira que construímos a medicina e justificamos suas finalidades e seus propósitos, por vezes perdendo o tênue limite entre ser o salvador ou o algóz do que definimos cuidar.

Cabe a medicina e seus executores o papel de entender os mecanismos existentes no processo das morbidades e seu alívio ou cura. Cabe ao médico evitar a extinção do ser humano, aliviar suas angústias, ou dores e colaborar nas medidas preventivas. Quando me deparo com um jovem médico ( por vezes um ex-aluno ou um ex-tutorado ) que não exerce estes princípios básicos e usa sua carreira para ascensão social ou política ou ainda que utiliza de seu sua influência médica para em benefício próprio angariar fundos com práticas médicas contestáveis e não científicas, eu me sinto traído!

A ciência médica em detrimento das outras é uma das mais nobres e mais apaixonantes de ser exercida... Para isso temos que senti-la... Sua profundidade, o que ela representa... Vivencia-la, participando ativamente do processo de vida e morte de outro ser humano... As vezes devido a esta complexidade surgem muitas frustrações, conflitos e todo dissabor que uma relação profundamente intima proporciona...

Ser médico não é ter uma postura soberba e intocável, não é vestir o tradicional branco, jaleco, pijama cirúrgico ou usar uma gravata importada e por isso sentir-se diferente dos demais... Ser médico não é falar pausadamente com frases prontas e linguajar erudito, vivendo em função de uma imagem. Ser médico é aceitar desafios diários e obrigações impensáveis... Ser médico é ser salva-guarda da raça homana e humildemente sentir o peso e a responsabilidade disso tudo...

Noites insones, livros, artigos, revistas, resumos... buscas por diagnósticos pouco claros... o constante assédio da indústria farmacêutica, gerando um conhecimento (?) pleno de interesses velados e escusos... Por outro lado as rotinas massacrantes, muitas vezes com queixumes que representam muito mais doenças "preveníveis" ou impensáveis no século XXI... verdadeiras patologias sociais advindas da doença moral de nossos políticos e de nossas políticas...
Rotas, Rotinas, Protocolos e Planilhas... gerando indicadores ... que talvez não gerem saúde ... mas seguramente nos afastam mais e mais da beira dos leitos e do olhar dos pacientes...

Examinar diuturnamente a medicina e refletir filosoficamente sobre a vida é um exercício de humanidade, buscando evoluir nas relações mas principalmente buscando a evolução da sociedade e o quão saudável ela pode ser...




Na mitologia, Asclépio o "Pai da Medicina" aprendeu a arte de curar... Tornou-se mestre... Ensinou... Desafiou a morte... Foi condenado a sair do Olimpo... Levado ao Hades (um inferno)... Resgatado, habita  nas estrelas e caminha entre os homens, ensinando medicina e aliviando-nos das doenças...

Que uma "Asclépio" maior nos faça sair do Olimpo nebuloso de convencimento e nos leve ao estado de reflexão permanente da Ciência-Arte que é a verdadeira medicina... Sem as tentações mercantilistas, financeiras ou das "superespecializações"... que é o caminho certeiro ao Hades de ignorância e desprezo à humanidade.




Medicina é ciência, arte e virtude, integralmente unidas nas atividades diárias do médico. Desarticular um dos membros dessa tríade é desmembrar a Medicina - cuja característica essencial é relação especial que une um ao outro. Quando isso acontece, ai poderemos ter um cientista, um artista ou um prático, mas jamais teremos um médico.

Edmund Pellegrino - The Anatomy of Clinical Judjments 

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quinta-feira, 14 de junho de 2012

As Panacéias da Vida




O que você acharia se lhe oferecessem uma substância que prevenisse a ocorrência de grande parte das doenças que nos afligem, como o câncer e o mal de Alzheimer, e que, ao mesmo tempo, fosse capaz de conservar a sua juventude e seu vigor sexual? E que, além disso, fosse totalmente natural e pudesse ser obtida a um baixo custo e sem efeitos colaterais, por meio do simples consumo diário de algumas pílulas?

Para muita gente, esse tratamento existe e está ao alcance em farmácias e até supermercados... A cada dia milhões de pessoas tomam convencidas de que essas substâncias podem conservar sua saúde e mesmo melhorá-la, movimentando uma indústria bilionária.

São elementos nutritivos essenciais para a vida que possuem na sua estrutura compostos nitrogenados os quais o organismo não é capaz de sintetizar e que, se faltarem na nutrição, provocarão manifestações de carência ao organismo.

As Aminas da Vida - que nome mais tentador!!!

VITAMINAS...

O corpo humano deve receber as vitaminas através da alimentação, por administração exógena (injeção ou via oral), ou por aproveitamento das vitaminas formadas pela flora intestinal (algumas vitaminas podem ser produzidas nos intestinos, pela ação da flora, sobre restos alimentares). A falta delas pode ser total - avitaminose -, ou parcial - hipovitaminose. Em ambas as situações, podem surgir doenças carenciais.

Entretanto, o consumo desenfreado e sem critérios dessas substâncias não tem qualquer efeito benéfico para o bem-estar e podem até causar problemas...

Diferentemente dos carboidratos, lipídeos e proteínas, elas não fornecem energia ou são empregadas como “materiais de construção” biológicos. Por outro lado, há mais de um século sabe-se que diversas patologias não são causadas por agentes infecciosos, e sim por deficiências vitamínicas. Compreendeu-se que as vitaminas são essenciais para a regulação de nossos processos fisiológicos, pois atuam como coenzimas e grupos prostéticos – moléculas que,ao se associarem com enzimas, tornam-nas ativas.

Como no caso de outros nutrientes, a deficiência de vitaminas pode se originar de uma dieta pobre ou desbalanceada ou ocorrer devido a problemas na absorção no trato digestivo, transporte, estocagem ou conversão metabólica. Embora a deficiência seja muito mais comum em países pobres, ela possui uma prevalência surpreendentemente alta nos países ricos, estando muitas vezes relacionada com a ingestão de uma dieta tipo "junk food" ou lixo enlatado... O alcoolismo e o consumo de drogas são fatores que também podem contribuir muito sócio-culturalmente no processo...

As vitaminas estão envolvidas com eventos chave de nosso metabolismo. Vejamos o exemplo da vitamina A, sintetizada a partir de carotenóides e retinóides presentes no leite e em outros produtos lácteos, no fígado, ovos e no pescado. Ela previne a ocorrência de deficiências óticas como a xeroftamia (queratinização da conjuntiva), a queratomalacia (redução e ulceração na córnea), cegueira, deficiências imunológicas, problemas reprodutivos e de crescimento. Juntamente com a desnutrição protéico-calórica, a carência de vitamina A é a desordem nutricional mais comum no mundo e acomete entre 5 e 10 milhões( !!! ) de pessoas anualmente, causando a cegueira de 250 mil indivíduos a cada ano.

Já a vitamina C, encontrada em frutas cítricas, tomates e em vegetais como couve e brócolis, é um poderoso antioxidante e agente redutor. Essa vitamina elimina os radicais, evitando o câncer e o envelhecimento precoce. Além disso, a vitamina C participa do metabolismo do colágeno e na síntese de neurotransmissores e, de uma forma ainda pouco compreendida, das reações imunes...

A vitamina E, encontrada nos vegetais, nos grãos, nos óleos e peixes, também atua como antioxidante. Está estabelecido que sua deficiência pode causar degeneração do sistema nervoso, alterações musculares e anemia hemolítica em crianças. Devido à ampla distribuição dessa vitamina nos alimentos, sua carência é um fenômeno raro, mesmo em países pobres... Confesso que nunca vi ou soube de um caso...

Por sua vez, a vitamina D, presente no pescado, grãos e metabolizada na pele na presença de luz solar, evita a ocorrência de raquitismo infantil e, em adultos, da osteomalacia (perda de massa óssea causada pela carência de cálcio na dieta) e da tetania hipocalcêmica. Essa vitamina está associada com a manutenção dos níveis dos níveis sanguíneos adequados de cálcio e fosfato responsáveis pela mineralização óssea normal.

Uma dieta diária variada e baseada em frutas, verduras, grãos e fontes de proteína deve proporcionar todas as vitaminas necessárias para a manutenção da estabilidade de nosso organismo. E somente em casos específicos, como na gravidez ou doenças degenerativas, devem ser administradas doses extras de vitaminas.

Porém, um homem propôs mudar, há cerca de quarenta anos, a visão que tínhamos das vitaminas e de seu papel em nossa saúde. Tratava-se de ninguém menos que Linus Pauling... uma grande estrela da ciência e único homem a ganhar dois prêmios Nobel em áreas diferentes, química e paz... e isso não é pouco!!! Alguém que tenho verdadeira paixão... Um ícone, junto com Dr. Osler... ( mas isso é outra história... )




Dono de uma enorme inteligência e carisma, Pauling utilizou toda a sua credibilidade para difundir a idéia de que o consumo de doses maiores de vitaminas – várias vezes mais elevadas que as doses diárias normais – poderia evitar a ocorrência de dpenças e até nos proporcionar uma vida mais saudável. Pauling, inclusive, passou a empregar nele mesmo sua teoria e consumiu durante a vida quantidades diárias enormes de vitamina C, na certeza de que esse nutriente iria fortalecer seu sistema imune e prevenir o resfriado e outras doenças.

Pauling e seus seguidores contribuíram para difundir a crença de que o consumo de vitaminas poderia, sem efeitos adversos, zelar por nosso bem-estar físico e mental.

Mas Pauling, que sempre será um ídolo para mim, parece ter negligenciado o método científico... e pesquisas posteriores demonstraram que o consumo diário de vitamina C não evita a ocorrência de resfriados ou mesmo de outras doenças. Isso ocorre porque nosso organismo é incapaz de absorver doses elevadas dessa vitamina. Além disso, seu consumo elevado pode ocasionar efeitos colaterais como uricosúria (excesso de ácido úrico na urina), absorção aumentada de ferro, acidose sistêmica e hemólise infantil.

Outras pessoas consomem vitaminas diariamente para evitar os radicais livres. Porém, esse procedimento normalmente mostra-se inócuo, pois nosso organismo não é capaz de absorver as doses elevadas, podendo inclusive provocar efeitos adversos como distúrbios gastrointestinais, interferência na captação das vitaminas A e K e mesmo predisposição para infecções intestinais em crianças.

O consumo excessivo da vitamina A, por outro lado, pode representar perigos para a saúde. Algumas fortes evidências indícam que doses elevadas desse elemento consumidas diariamente durante períodos prolongados por fumantes podem aumentar em até 30% o risco de câncer de pulmão!!!

Esses resultados mostraram que vitaminas não são tão inocentes ou "boazinhas" e incapazes de causar males. As vitaminas são substâncias cujo consumo desregrado envolve consequências inesperadas e enormes perigos e, por isso, devem somente ser receitadas de forma criteriosa por médicos.

De todas as formas, tenho certeza, que sendo o Amor a Vitamina da Vida, nada trata bem mais e melhor ao homem que a felicidade... Que assim seja...


"Que venham os anos, prentendo comê-los com sabedoria e um pouco de vitamina..."
( Lou Albertoni )
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sábado, 9 de junho de 2012

Sobre a Anemia e a Foice Racial.



Todos sabemos que as doenças não só têm importância médica, como também fortes simbolismos sociais e culturais. A maneira como as enfermidades são percebidas e descritas influencia o modo como elas são diagnosticadas e tratadas, assim como a estigmatização dos pacientes.

As hemácias em formato de foice -“falciformes”- foram descritas pela primeira vez por James B. Herrick, em 1910, em um paciente negro, criando um primeiro paradigma étnico.
Em 1923, o pediatra Virgil Sydenstricker publicou um artigo chamando atenção para o fato de a doença ser familial, afetar igualmente os dois sexos e provavelmente acometer apenas pacientes negros. A partir de então, firmou-se no cânone médico a conexão entre anemia falciforme e “raça negra”.  A associação inicial da doença com uma “raça” teve conotações políticas e ocorreu como parte do fenômeno de “patologização” do negro americano, bem descrito por Melbourne Tapper em seu livro In The Blood: Sickle Cell Anemia And the Politics of Race (“No sangue: anemia falciforme e a política racial”).

Posteriormente, na década de 1970, a conexão foi adotada paradigmaticamente pelo movimento negro americano, em especial pelo cardiologista Richard Williams no seu livro Textbook of Black-Related Diseases (“Livro-texto de doenças do negro”). É curioso que o co-autor de Williams nesse tratado tenha sido nada mais, nada menos que Martin Luther King, que não era médico. Sua participação nos remete à importância social e cultural das doenças e às conseqüências da forma como elas são percebidas e apresentadas. 




Entretanto, a despeito das "evidências" históricas, a distribuição populacional da anemia falciforme e especialmente a sua maior prevalência em indivíduos negros tem nada a ver com "raça" ( ou muito melhor referido: com fatores étnicos ).  Apenas na década de 1950 ( !!! ) que verdadeiramente foram comprovados os dados da associação entre malária e anemia falciforme, quando o médico inglês Anthony Allison identitificou, em Uganda, que crianças heterozigotas falciformes tinham 76% mais chances de sobreviver ao primeiro ataque de malária, quando comparadas com as crianças sem qualquer traço falciforme... "Provavelmente uma alteração bioquímica muito pequena pode conferir a uma espécie hospedeira um grau substancial de resistência a um parasito bem adaptado. Isto tem um importante efeito evolucionário. Significa que é vantajoso para o indivíduo possuir um fenótipo bioquímico raro [...] E significa, também, que é uma vantagem para a espécie ser bioquimicamente diversa e mesmo mutável em referência a genes envolvidos na resistência às doenças.”  - J.B.S. Haldane em 1949 ( perfeito !!!!!!! ) 

Mais tarde tudo isso ficou sacramentado pela óbvia correspondência geográfica entre a prevalência da malária e a frequência do gene falciforme na África.  Deve ficar bem claro, então, que a anemia falciforme não é uma "doença de negros" nem uma “doença africana”, mas sim uma doença eminentemente geográfica, produto de uma estratégia evolucionária humana para lidar com a malária causada pelo Plasmodium falciparum.  

Analogamente, a fibrose cística ou mucoviscidose é outra doença geográfica, desta vez européia, que emergiu como uma provável estratégia evolucionária de resistência à febre tifóide. Já a doença de Tay-Sachs, especialmente vista em judeus asquenazitas, parece estar ligada à resistência à tuberculose.  Mas deve ficar claro e evidente que a fibrose cística não é uma “doença européia”, nem a doença de Tay-Sachs é uma “doença judaica”. Altas freqüências da fibrose cística, por exemplo, já foram observadas em algumas populações do Oriente Médio e da África e a doença de Tay-Sachs é vista em elevada freqüência em canadenses franceses da província de Quebec.  Podemos, com esses exemplos, perceber o papel fundamental das doenças infecciosas na evolução do genoma humano e a notável importância do território endêmico dessas enfermidades na seleção de certos genes em determinadas populações humanas. É totalmente desnecessário invocar conceitos arcaicos como “raça” e “doenças raciais” para explicar a variação de prevalência de doenças genéticas em diferentes grupos populacionais.

Portanto qualquer estígma ou preconceito associado a uma doença específica tem que ser obrigatoriamente revisto sob o ponto de vista científico e humanista. Antes passamos por reflexões de tolerância e aceitação... Identificação de que a tolerância é, antes, expressão da aptidão para a paz, que exigência dirigida a outrem. Na realidade, é uma exigência para si mesmo...

Na Bíblia o livro do Apocalipse fala dos Quatro Cavaleiros: Morte, Guerra, Fome e Pestilência. De forma contemporânea lembrando dos conflitos na Irlanda do Norte, no País Basco, em Ruanda e nos Bálcãs no final do século passado e, após o 11 de setembro, a invasão do Afeganistão e do Iraque no início do século 21, acredito que vamos ter de adicionar pelo menos quatro novos cavaleiros à "tropa" do Apocalipse: Racismo, Xenofobia, Ódio Étnico e Intolerância Religiosa. Para combater esses novos inimigos da humanidade, precisamos promover na sociedade a valorização da diversidade em todos os seus níveis, iniciando em nossos corações e terminando nas ciências... Com uma foice em toda a intolerância!!!!

  " Para Conhecer O Mundo, Primeiro Canta A Tua Aldeia " (Dostoieviski)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Sangue do Meu Sangue

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Amar: 
Fechei os olhos para não te ver
e a minha boca para não dizer...
E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei,
e da minha boca fechada nasceram sussurros
e palavras mudas que te dediquei...
O amor é quando a gente mora um no sangue do outro. ( M. Quintana )



















Um dos valores mais arraigados de nossa cultura é o da consanguinidade, ou seja, o da descendência ou parentesco pelo "sangue".Nossa árvore genealógica... Embora hoje recoberta pela ideia dos genes, essa representação "sanguínea" nos liga pessoa-a-pessoa numa base naturalista de nossa visão de mundo: 
-Somos feitos da matéria combinada de nossos pais e mães; eles, de seus respectivos pais e mães, e assim até chegarmos em Adão e Eva...


Mas no final de contas quem é realmente parte de nosso sangue?

A cultura ocidental privilegiou um sistema chamado de bilateral,  pois consideramos consanguíneos todos os parentes pelo lado do pai e da mãe e a afinidade se restringe aos parentes da esposa (ou esposo, evidentemente), encontrados provavelmente nos termos da ‘ideologia do amor’.
Essa é uma das "ancoragens" históricas para nossa representação dos vínculos de sangue. Um pouco de um lado, outro pouco do outro, e estamos engatados em uma árvore genealógica frondosa, com galhos idênticos de ambos os lados...


A pergunta continua: Quem faz parte do meu sangue?

As tramas do parentesco são, porém, muito mais complexas do que apenas a regulação da procriação...
Muito mais do que um simples transmitir o sangue...
Elas lidam com os fatos da procriação, mas também envolvem redes de significado muito elaboradas, carregadas de tensões e conflitos, e muito estranhas aos nossos olhos...
Há sociedades poligâmicas; há sociedades que praticam o infanticídio generalizado, com adoção de filhos de uma casta escrava; há sociedades que praticam a reprodução incestuosa sistemática em suas casas reais; há sociedades em que casamentos homossexuais das elites se combinam com a adoção de descendentes oficiais nascidos na plebe; há sociedades em que o primeiro filho de uma mulher deve ser gerado por um amante cuja identidade deverá permanecer secreta para o filho; e assim por diante...

Nós, brasileiros, latinos, ocidentais não consideramos estranhos, no entanto, os nossos próprios costumes, que tendem a desvalorizar as adoções, por exemplo, e que levam muita gente a gastar rios de dinheiro e rios de lágrimas para conseguir levar a cabo uma gravidez assistida (inseminação artificial, barriga de aluguel etc...) que lhes garantirá um herdeiro "de sangue", "legitimo"... 
-Temos medo de sermos considerados "ilegítimos" ou "bastardos"... De não termos o sangue de nossos pais...


Todas as coisas são interligadas, como o sangue que nos une.
O homem não tece a teia da vida. Ele é apenas um fio dela.
O que fizer à teia, fará a si mesmo. ( Chefe Seattle )

De todas as formas sou filho, irmão, primo, tio "de sangue" de muitos... e tenho meu sangue correndo unido no coração de alguns... Pois esse é o verdadeiro laço de sangue, aquele que não refere cosanguinidade como marco ou qualquer laço genético como ícone, posto que a verdadeira união surge das graciosas teias do amor...

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sexta-feira, 25 de maio de 2012

Sangue - Dicionário


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Nome Masculino




Líquido constituído por uma parte fluida (o plasma) e por elementos celulares sólidos (glóbulos e plaquetas), que circula nos vasos sanguíneos e tem por função servir de veículo aos elementos nutritivos, a substâncias gasosas e aos produtos de excreção;



Figurado: Vida; Existência
Figurado: Família; Raça; Progenitura; Parentesco;
Figurado: Natureza
Figurado: Suco; Sumo;
Fisiologia: Sangue arterial sangue oxigenado nos pulmões e que circula nas artérias e veias; Sangue venoso sangue que perdeu oxigénio, rico em anidrido carbónico;


Sangue Azul: Nobreza, Fidalguia;

Chorar Lágrimas de Sangue: Ter profundo desgosto;

Estar na Massa do Sangue: Ser natural, Ser da própria índole;

Ferver o Sangue: (a alguém) Enfurecer-se, Ficar impaciente;

Ficar Sem Pinga de Sangue: Apanhar um grande susto;

Laços de Sangue: Parentesco
 
Subir o Sangue à Cabeça: Enfurecer-se, Irritar-se;

Ter Sangue na Guelra: Ter muita vida...


Sangue-Frio: Serenidade e autodomínio perante situações perigosas ou difíceis; controle das próprias emoções; a sangue-frio de forma deliberada e imperturbável, sem anestesia; perder o sangue-frio perder a calma.






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Sangueira



1.       Grande quantidade de sangue derramado

2.       Chacina
3.       Sangue das reses mortas
4.       Regionalismo chouriço de sangue
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segunda-feira, 14 de maio de 2012

Retornando

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Que volte a graciosidade das palavras e dos nomes para o VIVOSANGUE.
Pois graciosidade e sangue combinam até em sua origem grega:
A alma da vida, que ao meu ver é o sangue, deriva da palavra haima de onde "extraímos" hemácia...
Graciosa também é a derivado de um lindo nome grego ... 


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Em breve estaremos com novos escritos e atualizações...

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quinta-feira, 8 de março de 2012

Fêmeas e Mulheres





Todos os dias, mas hoje em especial, tenho uma necessidade "sanguínea" em escrever sobre mulheres que admiro...

Ao longo da história, o padrão de medida do que entendemos como humanos - tanto na filosofia quanto na sociedade em geral - passa por uma visão peculiarmente masculina...

Alguns foram absurdamente explícitos em igualar a humanidade apenas como masculina!!!

"A fêmea é fêmea em virtude de certa carência de qualidades"(Aristóteles)


É sabido que cada um de nós tem uma relação com o próprio corpo... com os outros... com o mundo e consequentemente com sua própria filosofia de vida... sendo assim o sexo tem grande influência em qualquer percepção de humanidade ou de sociedade... 

"A representação do mundo é obra dos homens; eles o descrevem a partir de seu próprio ponto de vista"  (Simone de Beauvouir)

Simone de Beauvouir acrescentou dizendo que viver uma existência verdadeiramente autêntica traz mais riscos do que aceitar um papel transmitido pela sociedade, mas é o único caminho para a igualdade e a liberdade...

O fato é que as diferenças ou mesmo as igualdades "libertadoras" das mulheres me encantam... fazem meu sangue ferver...

A Bíblia nos fala da mulher com fluxo de sangue; e naquela época a religião judaica considerava verdadeiramente imunda a mulher menstruada... Esta mulher, no meio da multidão, escondida, se esgueirando até conseguir tocar na ponta das roupas de Jesus... e Ele, apesar de toda a confusão pergunta: - Quem me tocou??? a mulher após se apresentar recebe a resposta que está curada!!! Pois é... Recebeu a cura pelo seu gesto de fé...
As mulheres são assim: Impetuosas, destemidas, corajosas... até com o Messias... Que dirá com meros mortais???

Olhar nos olhos e no coração de uma mulher é mergulhar num oceano de mistérios... de belezas, de infinitude...
Entrar neste olhar e correr este coração é ter um encontro profundo com a divindade, pois a mulher é uma "semi-deusa". Como mãe é a parceira de Deus no ofício perfeito da criação. Portanto, para mergulhar neste mar, é necessário também ter um coração puro...  estas são águas de profundo verde, com longos cachos dourados em forma de ondas, marcadas por naufrágios e cheias de tesouros afundados.

Tantos são os olhares quanto a infindável diversidade de vidas nos mares. Todas com suas belezas e perigos; seus desejos e mistérios; suas defesas e ataques... Entretanto, é necessário que se saiba sempre: Sejam nas partes rasas ou profundas, mergulhar nos olhos e no coração de uma mulher exige acima de tudo - Amor...

Hoje em especial fica o carinho para uma mulher que conquistou meu coração ha mais de 17 anos... Quando eu era um jovem tenente da FAB... e a Carolina tinha 7 aninhos... e era portadora de necessidades especiais além de ter uma leucemia... Dizia ser minha namorada... e queria um sorvete... "roubei" ela do hospital e a levei para o Mc Donalds da Ilha do Governador... Sabia que tinha pouco tempo para passear com ela... Quase fui preso... fiquei detido... respondi vários inquéritos... mas nunca vou esquecer os olhinhos de jaboticaba... felizes... bebendo um sunday de morango... 15 dias depois Carolina virou estrelinha...
Que mulher linda!










segunda-feira, 5 de março de 2012

Ética e Bioética em Genética













No ano de 1998/1999, ajudei a formular o pensamento bioético e dotrinário da Igreja Presbiteriana do Brasil no concernente ao "Projeto Genoma"... Naquele então era necessário um posicionamento frente as dúvidas e aos "fantasmas" inerentes a qualquer manipulação genética...
Muita responsabilidade para alguém ( na época ) com pouco mais de trinta anos... Como tinha uma mente em ebulição e uma curiosidade literária incomum, aproveitei a oportunidade e trabalhei em equipe com afinco, produzindo o documento que vou resumir abaixo...

E qual o motivo de apresenta-lo novamente, e agora?
Simples...  A leitura do Livro, obrigatório, da Mayana Katz: GenÉtica - Ed Globo - que me instigou a contribuir com uma parcela... lembrando que fiz isso ha quase 15 anos...



POSICIONAMENTO DA IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL FACE AO PROGRESSO DA CIÊNCIA E DO PROJETO DO GENOMA HUMANO (PGH)


A Fé Reformada Presbiteriana, sempre deu importante apoio à cultura e às ciências médicas, encorajando o estudo científico da natureza. Aprovou e incentivou o estudo da medicina e da astronomia. Não fora o impulso do calvinismo à ciência na Inglaterra dificilmente a humanidade teria chegado a física newtoniana. Outra importante contribuição do Presbiterianismo para o avanço da ciência foi o seu combate ao literalismo bíblico. De acordo com a doutrina de Calvino não há dicotomia entre cristianismo e cultura, ciência e fé: Deus é o autor e senhor soberano sobre toda a ordem da criação. Ao pensador calvinista não é próprio fazer distinção entre as esferas da atividade divina e humana nos campos da cultura, da ciência, da fé e da história. O Deus-Criador convidou o homem a ser o cooperador na obra de sua criação. O cientista verdadeiro e sincero age sobre a criação com a bênção e mediante convite do Criador. A ciência pesquisa a verdade, a fé a proclama. Deus opera e o homem coopera nas fantásticas iniciativas da clonagem humana de órgãos, visando ao bem do ser humano, à melhor qualidade de vida e à glória de Deus.

A evolução inexorável dos processos científicos e da descoberta de novas metodologias para o estudo nos levam à fronteira do conhecimento humano, principalmente nas biociências e na cosmologia.

O recente anúncio do término do seqüenciamentodo genoma humano e a corrida para a identificação de todos os genes do homo sapiens envolveram laboratórios de dez países e investimentos superiores a três bilhões de dólares. A importância do vulto de dinheiro e do envolvimento internacional denota o quão estratégico e/ou vital para a humanidade é o conhecimento do seqüenciamento genético, ou seja, a identificação e manipulação dos pares de genes, e a conseqüente "leitura" da produção de proteínas responsáveis pela formação e funcionamento do organismo humano.

Em uma análise inicial, o genoma humano é constituído por um número entre 31 e 39 mil genes. A euforia científica passa pela compreensão de que, em pouco tempo, teremos o tratamento de doenças até então incuráveis, bem como algumas respostas sobre o comportamento e a biologia humanas.

Quando, em 1665, Robert Hoor identificou e nominou uma célula e suas organelas, propiciou o ponto de partida para que, em 1953, Francis Crick e Robert Watson descrevessem a estrutura, em dupla hélice, da molécula do DNA (ácido desoxirribonucléico), e explicassem a produção de proteínas pelas células.

Após o completo seqüenciamento do genoma humano, o próximo passo será a leitura e a identificação do alfabeto e do idioma genético. A tradução das informações contidas nas bases nitrogenadas de adenina, citosina, timidina, e guanina elucidarão todo processo de fabricação das moléculas necessárias à vida. Portanto o agora denominado "Projeto Proteoma" pretende compreender como os genes interagem entre si e com as proteínas, tornando tão eficaz o  código genético.

Investimentos governamentais superiores a 100 milhões de dólares, e investimentos privados  cinco vezes superiores (inclusive oriundos de empreendimentos ligados ao ramo securitário) trabalham com a  possibilidade de lucros exorbitantes provenientes de patentes e royalties do domínio da farmacogenética. A técnica científica e a epistemologia do conhecimento poderão estar pervertidos por interesses econômicos e  financeiros, empurrando ainda mais as nações do Terceiros Mundo a um estágio de maior dependência. A lei das patentes em ciência e os direitos autorais deverão ser abusivamente debatidos e amadurecidos para que a evolução da cura de doenças genéticas e a utilização plena da farmacogenética não estejam ligadas a grupos privados sem o compromisso desenvolvimentista.

Uma segunda vertente do estudo e aperfeiçoamento da genética humana e da embriologia nos leva à clonagem ou reprodução assexuada de um ser vivo. Apesar de, atualmente, os níveis de eficiência técnica serem muito baixos (a clonagem da ovelha Dolly teve um nível de eficiência técnica inferior a 30%), esta manipulação deverá aprimorar-se a níveis próximos da eficiência absoluta, ou seja, a clonagem será tão eficiente e factível quanto hoje é uma inseminação artificial. Portanto, as questões bio-éticas e senvolvimentistas deverão encarar não apenas questões simples como clonagem de tecidos para transplante transgênico e transplante entre humanos (evitando as terríveis e limitantes reações imunológicas), bem como questões mais concretas como a clonagem humana, o "reducionismo" e a limitação de combinações gênicas, posto que se trata de reprodução assexuada.

Estamos vivendo um grande amanhecer científico e todas as questões ligadas ao conhecimento do homem e do planeta devem ser democratizadas, divididas e compartilhadas. A ciência e o conhecimento não podem ser exclusivistas ou limitantes. O projeto Genoma, o Projeto Proteoma, a clonagem e a biodiversidade devem ser debatidos como um patrimônio científico da humanidade e não podem estar tabulados por qualquer determinante político ou econômico. A redundância da informação vale: ―O bem maior da humanidade é o homem e seu meio - Utilizemos este novo conhecimento com juízo e maturidade, evitando os erros passados (e não tão passados) aos racismos e  eugenias. A ciência destina-se ao bem e ao progresso de toda a humanidade.


(... nos comentários o posicionamento pastoral... )



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Sobre Sangue E Conhecimento





Uma das primeiras, e mais elaboradas, classificações dos distúrbios mentais vem da época do descobrimento do Brasil... Naquele então a distinção clássica era limitada a apenas quatro tipos de doenças: Consternatio(estados febris e catatônicos), Defatigatio(insônia provocada por forças sobrenaturais), Imbecilitas (dispensa maiores explicações) e Alienatio(demência, alcoolismo, possessão pelo demônio, melancolia, ciúme e amor)... e um dos tratamentos mais comuns era a transfusão de sangue para o corpo do doente (infelizmente na maioria das vezes era sangue de cordeiros)...

Demorou muito para que Freud inaugurasse a psicanálise e Balint concluísse com a premissa: "...o médico é um medicamento..." Assim sendo o homem deve ser tratado em sua totalidade, sem a distinção entre corpo e mente... Não tratamos mais os distúrbios mentais com "transfusões" e o materialismo químico dos psico-fármacos tem que ser revisto incansavelmente...

Durante anos, lecionando na Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, participei de um "Grupo Balint", onde a reflexão contínua era instigada... Cada semana era trazido um caso, ou vários, e fazíamos uma verdadeira auditoria da terapêutica, das condutas, das posturas... Ao final o que realmente acontecia era o tratamento dos professores, médicos e alunos ... Tínhamos uma contínua "transfusão" de conhecimento... recebido... trocado...

Quanta anemia temos que ter?
Quanta transfusão temos que receber?
Quanto sangue somos capazes de doar?

A Filosofia do pensamento médico-científico ensina a questionar o conhecimento aceito e, então, estabelecer novo conhecimento por meio da prática do método científico...

"O Progresso É Uma Série De Negações" ( Hegel)

Neguemos o nosso próprio sangue, doando... nos tornando anêmicos de todo entendimento... prontos para receber toda transfusão... e assim, aos poucos, desenvolvendo nosso sangue, nossa medula... fugindo de toda transformação mágica...
...e que a única doença permitida seja a Alienatio, pelo amor...
...para nos tornarmos verdadeiros dementes de tanta necessidade amorosa de conhecimento, auto-conhecimento e elucidação, que nos leva ao desenvolvimento de nossa consciência, transcendendo as "couraças" e indo em direção da nossa verdadeira essência de amor, uma viagem que certamente exige mais coragem do que segurança.

Certos médicos têm medo do que pode vir a acontecer, mas esquecem que o fluir do sangue está presente no agora. E é no agora que está a verdadeira "transfusão" e o verdadeiro aprendizado que talvez até traga a paz e a satisfação interior. Aprender, aprender, aprender...

E assim, podendo manter sempre viva minhas palavras pronunciadas ha mais de 20 anos, onde conclamei Apolo, Esculápio, Higeia e Panaceia, e tomei por testemunhas todos os presentes, para cumprir, segundo meu poder e minha razão o juramento de manter imaculado meu sangue, minha arte, minha medicina...


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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Destinos E Decisões




Como águas profundas, são os propósitos do coração do homem e somente um sábio será capaz de descobri-los...
(provérbios 20:5) 



Filósofos têm argumentado por séculos (milênios, na verdade) se os nossos destinos são guiados por nossa própria vontade ou se são pré-determinados como resultado de uma cadeia contínua de eventos sobre os quais não temos controle... 


Sabemos, juntamente com Shakespeare, que nosso coração tem razões que a própria razão desconhece... e portanto existe um oculto muito além do nosso saber... muito além do pulsar do sangue... que impede a plenitude dos desejos... e faz inescrutável nosso julgamento...


Quem dera fosse simplificado pela quiromante em linhas visíveis... mas não... passamos ao impalpável até para nossas linhas palmares...

Por um lado, parece que tudo o que acontece tem algum tipo de explicação causal; por outro, quando tomamos decisões, parece-nos que temos o livre arbítrio que nos permitiria tomar decisões diferentes e trilhar outros caminhos.

Uma história atribuída ao Rabino Schachter fala sobre um discípulo que veio perguntar sobre como tomar decisões:



-Como atingir a sabedoria para tomar o melhor julgamento?

-Pelo bom senso, de bons julgamentos.
-E como é que se alcança o bom julgamento?
-Por meio de muita experiência.
-E como é que alguém atinge muita experiência?
-Por intermédio de maus julgamentos! 

O debate sobre o livre-arbítrio e o determinismo é um problema desse tipo.

O princípio central do determinismo é que tudo o que acontece é o resultado de algo que o fez acontecer, e esse algo foi provocado por um algo anterior e assim por uma cadeia infinita que remonta ao início dos tempos... ou até antes...

O conflito surge quando as pessoas se deparam com a necessidade de fazer uma escolha ou tomar uma decisão que resulta em tomar caminhos diferentes, todos eles caminhos igualmente possíveis... jornadas de vidas... Destinos...

Algo tem que ser abandonado!!!

Seja o nosso gosto pelo livre arbítrio, seja a ideia de que cada evento é completamente causado por eventos anteriores...

Para piorar (ou melhorar) minha consciência... eu que leciono e milito nas cátedras... também convivo com definições científicas de um futuro predeterminado e, ao mesmo tempo, inescrutável. A física indica que nosso futuro está escrito. Como disse Einstein em pessoa: "A distinção entre passado, presente e futuro é uma ilusão"...

De todas as formas, se "determinados" ou com "livre arbítrio", fomos presenteados com essa maravilhosa "máquina" de pensar: Nosso Cérebro. 
Com artérias, veias, neurônios, sinapses, pulsos elétricos e todo o sensacional meandro de interligação que o compõe... nos diferenciando de nossos "parentes" primatas... 
Este maravilhoso cérebro também nos auxilia a identificar que neste mundo tão confuso e cheio de opções, ocultas, veladas ou expostas, nós sempre poderemos fazer escolhas... Mesmo que elas já tenham sido feitas... Anteriormente... 



Senhor, tu me sondas e me conheces.
Sabes quando me sento e quando me levanto; de longe percebes os meus pensamentos.
Sabes muito bem quando trabalho e quando descanso; todos os meus caminhos te são bem conhecidos.
Antes mesmo que a palavra me chegue à língua, tu já a conheces inteiramente, Senhor.
Tu me cercas, por trás e pela frente, e pões a tua mão sobre mim.
Tal conhecimento é maravilhoso demais e está além do meu alcance, é tão elevado que não o posso atingir.
Para onde poderia eu escapar do teu Espírito? Para onde poderia fugir da tua presença?
Se eu subir aos céus, lá estás; se eu fizer a minha cama na sepultura, também lá estás.
Se eu subir com as asas da alvorada e morar na extremidade do mar,
mesmo ali a tua mão direita me guiará e me susterá.
Mesmo que eu dissesse que as trevas me encobrirão, e que a luz se tornará noite ao meu redor,
verei que nem as trevas são escuras para ti. A noite brilhará como o dia, pois para ti as trevas são luz.
Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe.
Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Disso tenho plena certeza.
Meus ossos não estavam escondidos de ti quando em secreto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra.
Os teus olhos viram o meu embrião; todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir.
Como são preciosos para mim os teus pensamentos, ó Deus! Como é grande a soma deles!
Se eu os contasse seriam mais do que os grãos de areia. Se terminasse de contá-los, eu ainda estaria contigo.
Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece as minhas inquietações.
Vê se em minha conduta algo que te ofende, e dirige-me pelo caminho eterno.
(Salmo 139)


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domingo, 5 de fevereiro de 2012

Para Onde Corre Nosso Sangue?



A ciência como um todo e a medicina moderna em especial dependem não só do conhecimento minuscioso da bioquímica e biofísica das células, mas também de um entendimento profundo de todo entorno científico que cerca a doença e o doente [ que ironia essa retórica...  como se fosse possível separar a enfermidade do enfermo ]
Esse avanço da técnica e do conhecimento, foi guiado pela ciência... com alguns saltos, algumas revoluções, não tantas como heroicamente (e erroneamente) costumamos narrar... tão pouco a ciência é feita exclusivamente por lampejos de genialidade! É certo que tivemos alguns... mas... Os grandes avanços foram conseguidos realmente pela rotina e persistência de objetívos... lentos... colaborativos... graduais... constantes...

E o conhecimento gerado?
Para onde correu o sangue?
Guiados por quem?
Baixo quais interesses?
Para onde foram nossos valores?

A ciência não é democrática... ela é apaixonada e sanguinária... e muitas vezes ela é contraintuitiva... Segue por veias do irracional e do implausível...
Na vida cotidiana, acabamos aceitando tudo isso sem refletir, pois são coisas que na maioria das vezes não nos afetam... Mas quando os fatos entram em conflito com nossos interesses ou nossa visão do mundo... hum... pode ter certeza que teremos problemas...

Sou Médico Hematologista e Professor... Racionalista... Lecionando com firme convicção e clareza todos os fundamentos evolucionistas pertinentes...
Sou Criacionista... Creio firmemente num Deus criador de todas as coisas... e me aceito como criatura pessoal e individualmente criada.
Meu sangue corre pela ciência e pela fé com igual equilíbrio... com equivalente fé... com mútuo respeito...


No final do século XVII, as noites de lua cheia eram aguardadas pelos amigos da "Sociedade Lunar"... eram livres pensadores com grande variedade intelectual, não eram aristocratas ou acadêmicos... eles tinham em comum a tolerância... Alguns eram não conformistas, outros, sacerdotes da igreja oficial, alguns eram radicais, outros tradicionalistas. Mas todos deixavam as convicções políticas e religiosas de lado, pois o assunto das conversas "baixo a lua" eram as incríveis descobertas científicas e técnicas produzidas naquele século... Aquele era o alvorecer de uma época em que as vertentes sanguíneas da ciência falavam mais e melhor... Iniciou-se a voz do intelecto... que aos poucos ganhou espaço... ocupou veias, artérias e todo nosso ser... O fervilhar da ciência criava veias paralelas com as veias da fé... 


Que uma nova "Sociedade Lunar", se reúna em algum parque florestal, em noites de lua cheia e com seus valores de tolerância crie em todos nós, novas artérias e veias para o fluir do sangue pela ciência e pela fé...


...porque não ha ciência no universo que tire do meu coração e das minhas veias a certeza que minha vida foi "comprada" por sangue...


"Onde a árvore cresceu, hoje ruge o oceano.
Ó Terra, que mudanças viste!
E onde agora freme a avenida,
Reinava a quietude do mar central."
(Tennynson)
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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Sangue Fervente E O Córtex Pré-Frontal

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O que faz nosso sangue ferver???

Uma negativa? decepção? e o que dizer da ansiedade? e as decisões?

Ah... as decisões... essas sim fervem nosso sangue...

Tantas variáveis... tantas opções e vertentes... Processar todos esses "obstáculos" parece um martírio para o cérebro. Mas nós, humanos, temos um método bem desenvolvido pelo córtex pré-frontal (a área do cérebro que fica logo atrás de nossa fronte e "raciocina" em cima dos nossos problemas). O "método" é simples: comparar tudo.

Se estamos indecisos entre casar ou comprar uma bicicleta, o cérebro compara todas as consequências das duas opções. Ele não quer saber se você está prestes a realizar o sonho da vida a dois ou se pretende correr a Tour De France - ele vai analisar, dado a dado, se o casamento vai ser mais "vantajoso" que a bicicleta. Como um verdadeiro contador olhando um balanço financeiro.

Essa frieza toda é parte do papel que a razão tem nas escolhas. Ela está olhando para o nosso futuro - quer garantir sucesso no longo prazo, mesmo que a escolha pareça menos prazerosa no presente. É o contraponto aos sentimentos irracionais, como emoções e instintos, que se preocupam com o resultado imediato das nossas escolhas.

Dizem os antropólogos e sociólogos que as primeiras decisões racionais do homem aconteceram entre 200 e 100 mil anos atrás, e aconteceram por causa da evolução social, por conta da nossa evolução cerebral... ( e vejam que ironicamente, por definição, sou um criacionista... ) pois nessa época, passamos a fazer escolhas para preservar o clima de cooperação no bando, na tribo...

É possível que a primeira decisão racional tenha ocorrido quando um homem conteve o impulso de roubar a mulher de outro... Ou evitou agredir um companheiro. E assim começamos listas de prós e contras para tudo... Que pena...


A medicina passou a entender como a razão opera graças a um grave e curioso acidente. Aconteceu em 1848, com o americano Phineas Gage que trabalhava na construção de estradas de ferro nos Estados Unidos, quando se descuidou ao preparar uma explosão. A pólvora foi acionada antes do tempo e fez tudo explodir... fazendo uma barra de ferro atravessar seu crânio!!!! E pasmem... ele continuou vivo!!!
A sobrevivência de Phineas teve uma sequela no mínimo "esquisita":
Ficou excessivamente racional.
Não demonstrava emoções e não tomava decisões que fugissem à simples lógica de uma soma matemática. Na época, seu caso não pôde ser explicado pelos médicos. Só na década de 80 o neurologista português António Damásio ( recomendo a leitura de seus livros... simplesmente fantásticos... ), descobriu que o problema de Phineas era o mesmo de pacientes que haviam passado por cirurgia para a retirada de alguns tumores cerebrais.

Portanto o nosso sangue ferve mais ou menos por causa do nosso córtex pré-frontal, que com sua interligação, nos faz usar uma racionalidade desprovida de emoções onde reina, unicamente, a lógica e o racionalismo para as consequências futuras...

E o que fazer com nosso sangue?
Em Cem Anos de Solidão( Gabriel Garcia Marques ), o sangue percorreu a rua, atravessou a praça, entrou em uma casa, para finalmente chegar até a matriarca Úrsula e avisar que seu filho havia morrido... 

Assim tem que ser o sangue... Fervilhante, Vivo... Cheio de vontade própria e da boa inconsequência...

Que venha a "hemorragia" emocional devorando a "coagulação" de nosso córtex pré-frontal...

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domingo, 29 de janeiro de 2012

A Sina Do Lobisomem


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O LOBISOMEM

Pobre coitado, dividido em metades... Homem... Lobo...
Homem que se transforma em lobo... Homem que se transforma...
Segundo a crendice popular ele vagueia pela noite para cumprir o seu destino...
Homem comum, vive e trabalha... conversa, convive, comemora...
Nas noites de Lua Cheia se transforma em um lobo ou em um homem peludo com cabeça de lobo e ataca quem cruza o seu caminho. Antes do dia raiar volta a forma humana.
Justo uma Lua Cheia é o evento transformador... Curioso pois também fui testemunha da maior lua do século em Itatiaia... e de fato fui transformado, não em Lobisomem, mas em Vampiro - meu alter ego... transformando minha metade humana dependente do sangue de outrem...

"O lobisomem é o filho que nasceu depois de uma série de 7 filhas. Aos 13 anos, numa terça ou quinta-feira, sai de noite, e topando com um lugar onde um jumento se deitou, começa a sua sina. Daí por diante, todas as terças e sextas-feiras, de meia-noite às duas horas, o lobisomem tem de fazer a sua corrida ... Quem ferir o lobisomem, quebra-lhe o destino; mas que se não suje no sangue ou herdará a triste sorte... Para desencantá-lo basta o menor ferimento que cause sangue. Ou bala que se unte com cera de vela que ardeu em 3 missas de domingo ou na missa do galo, na meia-noite do Natal." (Luís da Câmara Cascudo)


Vida árdua... dividida em metades... tendo que ser ferido a sangue para ser normal...
Ferido a sangue para ser inteiro...
Ferido a sangue para que metades façam sentido... porque não sei quando as metades tem que fazer algum sentido...
Porque nunca sei qual metade do sangue coagula e qual metade sangra...



Que a força do medo que tenho

Não me impeça de ver o que anseio



Que a morte de tudo em que acredito

Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito 
Mas a outra metade é silêncio. 



Que a música que ouço ao longe

Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada 
Mesmo que distante 
Porque metade de mim é partida 
Mas a outra metade é saudade. 



Que as palavras que eu falo

Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas 
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos 
Porque metade de mim é o que ouço 
Mas a outra metade é o que calo. 



Que essa minha vontade de ir embora

Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro 
Seja um dia recompensada 
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão. 



Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui 
A outra metade eu não sei. 



Que não seja preciso mais do que uma simples alegria

Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais 
Porque metade de mim é abrigo 
Mas a outra metade é cansaço. 



Que a arte nos aponte uma resposta

Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar 
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer 
Porque metade de mim é platéia 
E a outra metade é canção. 



E que a minha loucura seja perdoada

Porque metade de mim é amor
E a outra metade também. 





(Oswaldo Montenegro)
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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A Face

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Por Mozart Noronha

A face que é da vida a expressão
Faz-se da alma o espelho reluzente;
Refletindo no olhar o ser da gente,
Transparece o que sai do coração.

Na face, Deus, com toda precisão
Do divinal artista e Pai clemente,
Colocou carnes, músculos...e, contente
Foi contemplando toda a criação.

Com pele Deus forrou devagarinho
Ouvidos, ossos, nervos...e, com carinho
Resolveu navegar em cada artéria,

Do nariz transportando fôlego e vida.
Finalmente, na boca pôs comida
Sintetizando o espírito e a matéria.
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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Sangue Emocional



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Qual é mais digna ação da alma; sofrer os dardos penetrantes da sorte injusta, ou opor-se a esta corrente de calamidades e dar-lhes fim com atrevida resistência?
(Shakespeare - Hamlet) 
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Algumas pessoas acreditam ser obrigatório um motivo de vida (existencial) para aparecer a Depressão...

-Estão erradas!!!

Quando não encontram um motivo "justo" para sua Depressão, acabam achando impossível manifestar um sentimento depressivo. Pensam que estar deprimido sem motivo aparente (apesar das "coisas" estarem bem) seria considerado fraqueza... 

Por uma questão biológica e natural, nem sempre as emoções obedecem a razão e, apesar de sabermos racionalmente não haver motivos suficientes para nossa Depressão, esta alteração afetiva acaba aparecendo mascaradamente... Quase sempre um sinal de alerta para uma eminente falência psíquica (ou esgotamento).

Há pessoas que não toleram presenciar cenas de sangue sob o risco de passarem mal... (particularmente adoro ver sangue, me sinto vivo e avivado... é o sangue a verdadeira fonte de toda a existência...) 

Ha alguns anos que sou chefe clínico de plantão de uma Unidade de Atendimento de Emergência Pública do Rio de Janeiro. Por inúmeras vezes testemunhei desmaios provocados pela simples observação de uma ferida aberta ou a exposição de sangue... Pois bem, o desmaio é uma defesa psíquica do organismo que não deseja presenciar a cena, portanto, uma atitude francamente psicológica. 
Essa fuga de uma realidade não é uma atitude planejada pelo nosso psiquismo (inconscientemente). 

Ora, ninguém acredita que esses desmaios sejam doença física que aparece sempre que o paciente estiver diante de sangue. Portanto, tratam-se de desmaios eminentemente "psíquico".

Nem podemos pensar que a pessoa desmaiou porque assim desejou, ou que está fingindo um desmaio. Não é um "PITI"... Trata-se de uma atitude psíquica de adaptação à uma situação que não se quer encarar...  O medo do sangue - aquele que representa vida... 
É a emoção subjugando a razão.
Portanto, a conclusão simples e imediata é que as emoções aparecem independente de nossa vontade, sendo assim, as alterações do humor aparecem mesmo diante de nosso suposto controle... basta que o "sangue" esteja presente, basta que o "sangue" represente algo que não se quer...

Limpar as feridas ou banhar-se de sangue?


De Shakespeare trago, mais uma vez, as palavras que espero sejam conclusivas:
Acima de tudo sê fiel a ti mesmo, 
Disso se segue, como a noite ao dia, 
Que não podes ser falso com ninguém 

(acrescento) nem mesmo com teu sangue...






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